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jovem potiguar transforma relação conturbada em livro

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A decisão de transformar uma experiência íntima em livro não foi imediata para João Pedro Fontes. Aos 23 anos, formado em Comunicação Social com habilitação em Publicidade e Propaganda pela UFRN, o autor potiguar conta que a escrita começou como um exercício terapêutico, sem qualquer pretensão editorial. “Eu achava que já tinha superado o que vivi, mas ainda estava confuso demais para entender tudo”, relata em entrevista à Agência Saiba Mais. O ponto de virada ocorreu em uma sessão de terapia, em 25 de novembro, quando percebeu que as anotações fragmentadas não davam mais conta do que precisava ser elaborado.

Nascido em Marcelino Vieira, no Alto Oeste do Rio Grande do Norte, João Pedro carrega uma trajetória marcada por deslocamentos e silenciamentos. Mudou-se para Natal ainda criança, em função de questões de saúde, e relata que crescer longe do interior, em um ambiente escolar onde não se encaixava nos padrões esperados, teve impacto direto na forma como construiu sua autoestima. “Hoje sinto que aquele JP de 12 anos, de Marcelino Vieira, finalmente volta a se expressar.”

O livro “Será Que Estou Louca?” surge justamente desse processo de reconexão consigo mesmo. Segundo o autor, o título antecede a escrita e traduz o estado de dúvida permanente vivido durante um relacionamento marcado pelo gaslighting. “No início, eu realmente não acreditava na minha própria sanidade. Hoje entendo que não sou louca, apesar de ter recebido esse ‘diagnóstico’ de alguém que não era profissional da área”, diz.

O gaslighting é uma forma de violência psicológica caracterizada pela manipulação emocional contínua, na qual a vítima passa a duvidar da própria memória, percepção e sanidade. A prática costuma ocorrer de maneira sutil e repetitiva, por meio da desqualificação de sentimentos e distorção de fatos, o que dificulta o reconhecimento do abuso enquanto ele ainda está em curso.

Foi apenas após concluir a primeira versão do texto que João Pedro conseguiu nomear o que havia vivido. “Só percebi a dinâmica depois de escrever tudo. Antes, eu estava muito confuso”, explica. O reconhecimento veio também a partir da leitura de amigos próximos, que ajudaram a identificar padrões de desqualificação emocional presentes na relação. A escrita, nesse sentido, funcionou como ferramenta de revelação e enfrentamento.

Alguns trechos, no entanto, se mostraram difíceis demais de sustentar. Um diálogo específico, que tratava do medo constante da morte e da urgência de viver diante do adoecimento, acabou sendo retirado da versão final. “Ali eu me senti profundamente invalidado. Reescrever aquilo foi doloroso, e manter o trecho também”, conta. Revisitar esses episódios trouxe à tona ataques recorrentes à sua autoestima, que antes passavam despercebidos.

Apesar da intensidade do processo, a escrita foi rápida. A primeira versão ficou pronta em cerca de duas semanas, a partir da anotação inicial feita no fim de novembro. Depois disso, o autor realizou apenas ajustes pontuais. Ainda assim, a decisão de tornar o texto público veio acompanhada de receios. “Sinto um pouco de vergonha por ter deixado isso acontecer comigo”, admite, ao falar sobre a exposição envolvida em tratar de um tema tão íntimo.

A publicação do livro está sendo viabilizada por meio de financiamento coletivo na plataforma Apoia.se. Para João Pedro, a escolha não foi apenas prática, mas também simbólica. “Quero construir uma comunidade em torno desse livro. O financiamento coletivo permite isso”, afirma. O engajamento superou suas expectativas. “Eu não esperava nem 10% desse apoio. Sem ele, o lançamento provavelmente demoraria muito mais.”

Mais do que relatar uma experiência pessoal, o autor enxerga o livro como um convite à escuta e ao reconhecimento de vivências que muitas vezes permanecem invisibilizadas. A proposta é que a obra dialogue com outras pessoas que já duvidaram de si mesmas após relações marcadas por manipulação emocional.

Questionado sobre novos projetos, João Pedro afirma que há outros textos escritos, mas que ainda precisam de tempo. Por ora, “Será Que Estou Louca?” representa não apenas uma estreia literária, mas um gesto de retomada da própria voz. “Escrever me fez perceber tudo o que aconteceu. Antes, eu não tinha consciência”, conclui.

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Fonte: saibamais.jor.br

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