Uma conta bancária “laranja” em nome de uma estudante menor de idade teria sido utilizada pelos operadores da suposta rede de propinas e fraudes em licitações na área da Saúde que atinge o prefeito de Mossoró e pré-candidato ao governo do Rio Grande do Norte, Allyson Bezerra (União). A informação é da Polícia Federal e foi revelada pelo jornal O Estado de São Paulo nesta segunda-feira (9).
A menor de idade é a filha de Oseas Monthalggan — sócio ligado à companhia Dismed e apontado como responsável por organizar e determinar a entrega de propinas a agentes públicos — e Roberta Ferreira Praxedes da Costa, proprietária da Drogaria Mais Saúde. O esquema movimentou R$ 13,5 milhões pagos à empresa fornecedora de medicamentos que, segundo a PF, repassava vultosas propinas ao prefeito.
Segundo as informações obtidas pelo Estadão junto à PF, a conta bancária da filha do dono da farmacêutica movimentou R$ 427 mil em um ano após contratos com o município de Serra do Mar, a 250 quilômetros de Natal. O uso dessa conta laranja seria uma forma de não chamar atenção dos investigadores e dos órgãos que mapeiam o fluxo de dinheiro.
“Cliente não aparenta possuir capacidade econômico-financeira para movimentar tal volume de recursos. Suspeita-se de movimentação de recursos de terceiros, notadamente de seu pai, para fins de sonegação fiscal”, aponta a PF, de acordo com a reportagem do Estadão.
A análise dos débitos da Drogaria Mais Saúde pelos investigadores revelou que a maior parte das saídas financeiras da empresa foi direcionada para a filha de Roberta e Oseas. Ela recebeu R$ 427 mil entre julho de 2022 e junho de 2023.
Segundo a PF, o esquema de desvio de recursos da Saúde e fraude em licitações atingiu os municípios de Serra do Mel, Mossoró, Paraú, São Miguel, José da Penha e Tibau. No dia 27 de janeiro, após a deflagração da Operação Mederi e o cumprimento de mandado de busca e apreensão em sua casa e outros locais, Allyson Bezerra divulgou nota à imprensa e afirmou que não há qualquer fato que o vincule pessoalmente à investigação, tendo os mandados judiciais sido deferidos com base em diálogos envolvendo terceiras pessoas.
A Agência SAIBA MAIS buscou a assessoria da Prefeitura de Mossoró na manhã desta terça-feira (10) e aguarda posicionamento.
“Matemática de Mossoró”
“Matemática de Mossoró” foi a expressão usada pela Polícia Federal no âmbito da Operação Mederi para descrever o suposto esquema de corrupção e desvio de recursos públicos da saúde na Prefeitura de Mossoró, que teria como um de seus beneficiários, segundo as investigações, o próprio prefeito Allyson Bezerra. O termo refere-se especificamente a um percentual de 15% de propina que seria cobrado da empresa Dismed, pivô do esquema desarticulado pela PF e pela AGU, para facilitar os pagamentos dos contratos de fornecimento de medicamentos firmados com a Prefeitura de Mossoró.
O modus operandi da propina foi revelado através de uma escuta ambiental instalada pela Polícia Federal no escritório da Dismed. Nas conversas gravadas, o empresário Oseas Monthalggan Fernandes Costa explica a um interlocutor como funcionava a “Matemática de Mossoró”.
“Olhe, Mossoró, eu estudando aqui. Como é a matemática de Mossoró. Tem uma ordem de compra de quatrocentos mil. Desses quatrocentos, ele entrega duzentos. Tudo a preço de custo! Dos duzentos ele vai e pega trinta por cento, sessenta R$ 60.000,00, então aqui ele comeu R$ 60.000,00! Fica R$ 140.000,00) pra ele entregar cem por cento. Dos cento e quarenta ele R$ 70.000,00. Setenta com sessenta é meu, R$ 130.000,00. Só que dos cento e trinta nós temos que pagar cem mil R$ 100.000,00 a Allyson e a Fátima, que é dez por cento de Fátima e quinze por cento de Allyson. Só ficou trinta mil R$ 30.000,00 pra a empresa!”, disse Oseas Monthalggan, em maio de 2025, sobre a ‘matemática’ do município.
A Prefeitura de Mossoró, segundo a transcrição da conversa que consta na decisão judicial que autorizou a operação, havia emitido uma ordem de compra de medicamentos no valor de R$ 400 mil. No entanto, a empresa entregou apenas o equivalente a R$ 200 mil. A diferença seria distribuída entre os participantes do esquema.
Allyson e vice operariam o topo do esquema
De acordo com a reportagem do jornal, com base em informações de investigadores da Polícia Federal, o prefeito de Mossoró e seu vice, Marcos Bezerra (PSD), operavam “o topo do esquema”, além de receber “propina em porcentuais definidos sobre os contratos” com a Dismed. Allyson vai renunciar a Prefeitura em abril para ficar apto a concorrer ao governo estadual, e Medeiros vai assumir o Executivo municipal.
“Em relação a Allyson e Marcos, há referências nominais específicas nas conversas indicando recebimento de valores”, diz a Polícia Federal.
“No nível intermediário, estariam os gestores administrativos, que garantiriam as condições institucionais para funcionamento do sistema. No nível operacional, estariam os fiscais e gestores de contrato que viabilizariam concretamente as entregas parciais mediante atestados. Externamente à administração pública, estariam os empresários, que operacionalizariam o esquema no âmbito privado”, aponta a investigação.
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Fonte: saibamais.jor.br
