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Casa da Ribeira celebra 25 anos com Festival Verão Aquilombado

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Instalada no número 52 da Rua Frei Miguelinho, próximo ao Rio Potengi, a Casa da Ribeira ocupa um edifício erguido em 1911. Antes de se tornar referência artística, o imóvel funcionou como hospedaria para marinheiros, oficina naval, padaria e armazém de material de construção. Permaneceu fechado por cerca de uma década até ser ocupado, no fim dos anos 1990, por integrantes do Grupo de Teatro Clowns de Shakespeare e produtores culturais que buscavam autonomia para ensaiar e apresentar seus trabalhos.

O Festival Verão Aquilombado abre, entre os dias 6 e 8 de março, a agenda comemorativa pelos 25 anos da Casa da Ribeira, em Natal. Com mais de 30 atrações gratuitas distribuídas entre o interior do casarão e a rua Frei Miguelinho, no bairro da Ribeira, o evento inaugura um ano simbólico para um dos mais longevos espaços culturais independentes do Rio Grande do Norte.

“A ideia surge em 1998, diante da urgência de criar um lugar de autonomia para a arte. A ocupação do casarão foi um gesto de ousadia”, relembra Alessandra Augusta, atual presidente da instituição e pesquisadora de Teatro Negro, Feminismo e Ancestralidade.

Entre 1999 e 2001, o prédio passou por restauração viabilizada por meio das leis de incentivo Lei Rouanet e Lei Câmara Cascudo. A mobilização incluiu ações abertas ao público, como o projeto Na Rua da Casa, iniciado em julho de 1999, que levou apresentações artísticas às ruínas do imóvel e ao entorno. A captação de cerca de R$ 819 mil contou com o apoio de empresas como Cosern, Petrobras, Telemar e Armazém Pará. “Foram dois anos batendo na porta de patrocinadores. Um trabalho de formiguinha”, afirma Alessandra.

Desde a reabertura, em 2001, a Casa da Ribeira consolidou-se como espaço de formação, fruição e debate. Em 25 anos, contabiliza 542.981 espectadores, 2.810 espetáculos apresentados, 51 exposições de artes visuais, 54 projetos culturais e educativos realizados, 28 editais de ocupação e seis prêmios. Houve apenas uma interrupção nas atividades, em 2004, quando o espaço ficou fechado por três meses. “Foi um dos momentos mais duros. Mas conseguimos reabrir com o apoio de parceiros que acreditaram no nosso projeto”, recorda a gestora.

Hoje, a instituição é dirigida por Alessandra Augusta na presidência; Henrique Fontes na direção social; Ana Cláudia Viana na diretoria administrativa-financeira; e Jeane Ataíde na gerência administrativa. A manutenção do espaço depende majoritariamente da aprovação de projetos em editais públicos, responsáveis por cerca de 80% da receita, além da locação de pautas. “Acreditamos que a gestão independente facilita o acesso e a educação através da arte. Mas a ausência de políticas públicas estruturantes ainda é um entrave”, avalia Alessandra.

O simbolismo de permanecer na Ribeira, bairro historicamente marcado por ciclos de abandono, é parte central da identidade da Casa. “O simbolismo de ocupar um território historicamente marginalizado é imenso. Aqui, resistimos não apenas com arte, mas com a defesa do direito à cidade”, diz. Entre setembro de 2024 e janeiro de 2025, o espaço foi alvo de quatro furtos. “A insegurança não nos cala. Seguimos com indignação, mas com determinação.”

Para o quadriênio 2024-2028, a Casa lançou o programa Casa + Negra Diversidade, com ações afirmativas voltadas a pessoas negras, LGBTQIAPN+ e oriundas das periferias. A política impacta editais, cursos e programações, assegurando reserva de vagas e critérios curatoriais alinhados a práticas antirracistas e decoloniais. “É uma prática afirmativa e decolonial. Acreditamos na arte como ferramenta de equidade e transformação”, reforça a presidente.

O Festival Verão Aquilombado reflete essa diretriz. A programação inclui dança, música, teatro, contação de histórias, cinema, artes visuais, culturas tradicionais e uma feira de afroempreendedorismo com artesanato, moda e gastronomia instalada na rua. Também estão previstos debates sobre economia criativa, decolonialidade e práticas antirracistas, reunindo narrativas negras e LGBTQIAPN+ em múltiplas linguagens.

O projeto foi aprovado no Edital de Fomento às Artes Integradas e Outras Expressões Artísticas 08/2024, Faixa 02, da Política Nacional Aldir Blanc no Rio Grande do Norte, com apoio da Fundação José Augusto, da Secretaria de Cultura do Estado, do Sistema Nacional Aldir Blanc de Fomento à Cultura, do Ministério da Cultura e do Governo Federal.

Entre os destaques da programação está o solo de dança contemporânea “Eu Fêmea”, interpretado pela bailarina Rozeane Oliveira, na sexta-feira 6, às 20h. A obra investiga a experiência da mulher negra a partir de vivências atravessadas por violências históricas e cotidianas, tensionando também temas como resistência e transformação.

Para a artista, integrar o festival tem peso simbólico. “Estar inserida nessa programação, que potencializa a arte de artistas pretos da nossa cidade, e ainda celebrar os 25 anos da Casa da Ribeira, um espaço tão importante para a cena cultural de Natal, torna tudo ainda mais grandioso. Voltar a esse palco agora, depois de tanto tempo, carrega um peso emocional e artístico muito profundo”, afirma.

A apresentação marca o início da circulação do espetáculo, contemplado pela Lei Aldir Blanc no Edital de Fomento à Dança 11/2024. Após Natal, o solo segue para Recife e João Pessoa, com nova sessão prevista na capital potiguar em maio.

Rozeane retorna à cena após um acidente com deslocamento de quadril e segue em tratamento. “Meu corpo de hoje exige cuidados extremos para estar em cena, e minha rede de apoio tem sido fundamental para que eu me sinta segura”, relata. Ela conta com acompanhamento da Team Max, sob assessoria de treino de Alline Silva e preparação corporal de Ana Claudia Albano, responsáveis por adaptações coreográficas e fortalecimento muscular.

“Confesso que o frio na barriga é inevitável. Agora, o desafio é o solo: serei eu, sozinha em cena, durante 30 minutos. É um processo de entrega e confiança no tratamento que sigo realizando até junho. Apesar do nervosismo natural dessa volta, sinto-me firme e feliz. Tenho uma equipe preparada para que tudo corra bem e acredito que será uma grande noite de celebração, acolhimento e o marco de um novo ciclo de circulação que me deixa muito entusiasmada”, conclui.

Ao iniciar as comemorações de 25 anos com um festival que articula memória, formação e diversidade, a Casa da Ribeira reafirma seu posicionamento como espaço de criação e resistência cultural em Natal, mantendo-se ativa em um cenário de instabilidade para iniciativas independentes.

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Fonte: saibamais.jor.br

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