O humor é tão importante quanto o amor. Muitas relações afetivas se desgastam quando as pessoas descuidam da leveza e da capacidade de rir de si mesmas e do mundo. A melancolia, por vezes, tem seu charme; a rabugice, não. A leveza de alma é essencial para fortalecer vínculos e sustentar a convivência.
Também é verdade que algumas das mais belas obras de arte nasceram do sofrimento. Em carta ao amigo Zezim, Caio Fernando Abreu escreve: “Eu conheci razoavelmente bem Clarice Lispector. Ela era infelicíssima, Zézim. A primeira vez que conversamos eu chorei depois a noite inteira, porque ela inteirinha me doía, porque parecia se doer também, de tanta compreensão sangrada de tudo. Te falo nela porque Clarice, pra mim, é o que mais conheço de GRANDIOSO, literariamente falando. E morreu sozinha, sacaneada, desamada, incompreendida, com fama de ‘meio doida’. Porque se entregou completamente ao seu trabalho de criar. Mergulhou na sua própria trip e foi inventando caminhos, na maior solidão. Como Joyce. Como Kaflka, louco e só lá em Praga. Como Van Gogh. Como Artaud. Ou Rimbaud.”
Bem-aventurados aqueles e aquelas que conseguem dar destino às próprias emoções, transformando-os em práticas de criação e em caminhos de bem viver, capazes de pacificar suas trajetórias existenciais.
No último dia 25, Thiago Chagas celebrou seu aniversário. Ator, comediante, roteirista e produtor, ele construiu trajetória consistente no teatro, na televisão, no audiovisual e nas plataformas digitais. Nas redes sociais, reúne um público expressivo e alcançou ampla repercussão com a personagem Dona Fernandona, uma homenagem bem-humorada à atriz Fernanda Montenegro, que se tornou viral e ganhou espaço em programas televisivos. Seu lema é claro: “rir sem desligar o cérebro, digerindo o mundo com deboche.”
Thiago representa, de forma potente, a possibilidade de recuperar na cena cultural contemporânea um humor politizado e sofisticado, capaz de provocar reflexão, afirmar direitos e fortalecer a democracia sem recorrer à obviedade.
A escolha de representar Dona Fernandona foi particularmente feliz. Com precisão cênica, ele recria elementos marcantes da presença de Fernanda Montenegro: a peruca branca, os óculos, o colar de pérolas, o blazer, a voz pausada e rouca, os gestos contidos e o manejo expressivo da face. Palavras como “compreende”, “extraordinário” e “esperança” são pronunciadas com força simbólica e capturam a atenção do público. Fernanda Montenegro é uma atriz de rara competência, verdadeira reserva moral do Brasil, profundamente devotada à sua arte.
Um dos momentos mais marcantes dessa personagem ocorreu quando Thiago mencionou os acontecimentos de 8 de janeiro de 2023, em vídeo que viralizou ao afirmar que a arte resiste.
Tive a oportunidade de conhecer Thiago e testemunhar sua genialidade, aliada a uma grande ternura e competência. De modo muito especial, ele me reconecta à figura de Fernanda Montenegro. Em 2007, nossas biografias foram publicadas juntas no livro Mulheres do Brasil, experiência que guardo como um presente precioso da existência.
Fonte: saibamais.jor.br
