Bater papo sobre filmes assistidos com pessoas queridas sempre foi um dos maiores prazeres da minha vida. Além do prazer lúdico do papo em si, tais conversas ainda podem jogar luzes sobre aspectos diversos dos filmes do cinema em si, considerando o momento histórico. Foi o que aconteceu após papos diversos sobre filmes da temporada de premiações. Caiu a ficha que meia década depois da vacina, o cinema – assim como todos nós – ainda parece viver uma ressaca na pandemia de Covid, que nos assolou entre 2020 e 2021. Lembremos que na pandemia perdemos muita gente para o vírus e para o descaso e negacionismo.
Não por acaso, dos filmes concorrentes ao Oscar, muitos, na verdade quase todos, abordam a temática da perda. No grande vencedor, “Uma batalha após a outra”, do americano Paul Thomas Anderson, em um EUA distópico num futuro próximo, um pai perde a filha, sequestrada por um militar que acredita ser o pai dela, isso depois de ambos perderam a esposa/mãe, que trocou a família pela revolução.
O segundo maior vencedor de prêmios, o drama racial com vampiros “Pecadores”, mostra um dos irmãos gêmeos perdendo o outro para a morte em vida que é o vampirismo. No tocante drama inglês “Hamnet” uma mãe perde seu filho para a peste (numa quase pandemia da época), menino que teria sido imortalizado como purgação da perda pelo pai, nada menos que o dramaturgo William Shakespeare.
No filme brasileiro “O agente secreto”, de Kléber Mendonça Filho, que concorreu a 4 Oscars e brilhou em toda a temporada de premiações a partir de Cannes, o tema da perda é uma constante. O protagonista Marcelo/Armando (Wagner Moura) perdeu a esposa, Fátima, e durante toda a trama vai encontrando personagens que também perderam alguém. E em escala maior todos perderam liberdade e direitos, já que a história se passa em 1977, em plena ditadura militar (inclusive no Condomínio Ofir existe uma espécie de clube de refugiados políticos).
Mas o filme de Kléber vai além, e mescla com a temática da perda, a questão da memória (ou a falta dela). Durante quase todo o filme, Marcelo/Armando tenta encontrar a ficha de identidade de sua mãe, sobre a qual pouco sabe. Em compensação, décadas depois, seu filho já adulto, médico bem sucedido, diante da curiosidade da pesquisadora sobre Marcelo/Armando, responde com franqueza: “Você sabe mais sobre meu pai do que eu” e dispensa o dossiê que a moça montou. Não quer informações sobre o pai nem mesmo quando a colocam de bandeja sobre sua mesa.
Em “Uma batalha após a outra”, Bob, o pai vivido por Leonardo diCaprio, parece tentar esquecer o passado de guerrilheiro revolucionário. Na tentativa de mobilizar o antigo grupo para resgatar a filha, Bob é obrigado a dizer uma senha para que a conversa continuasse. Ele não se lembra, o que proporciona um momento engraçado mas também angustiante do longa. Como alguém esquece uma palavra de segurança que um dia pode lhe salvar a vida? Inclusive, a perda de memória em algum nível é um dos efeitos em quem teve covid e sobreviveu. Alguns amigos apontam essas lacunas de memória.
Perdas e memórias (ou falta delas, repito) também estão em mais dois excelentes filmes entre os concorrentes do Oscar: “Valor sentimental” e “Sonhos de trem”. No primeiro, poderoso drama familiar norueguês, a morte de mãe de duas mulheres na faixa dos 30 anos as obriga a voltar a ter contato com o pai ausente, um célebre cineasta que tenta esquecer esse processo de ausência. No segundo, drama independente americano com fotografia premiada do brasileiro Adolpho Velloso, um homem que não sabe quem são seu pai e sua mãe e não lembra de sua infância, se torna lenhador e constitui uma família. A perda, em um incêndio florestal, da esposa e da filha pequena, se tornaram um dos momentos cinematográficos mais impactantes do ano.
São os temas do momento: perda e memória.
No pós-pandemia, mesmo com volta à “normalidade” proporcionada pelas vacinas, parece ainda existir um sentimento coletivo de perda. Todos nós perdemos alguém querido, em algum nível, para a covid. Era natural que essa temática pairasse como um fantasma sobre a cabeça de cineastas e roteiristas, ainda que abordem a Inglaterra de 1500, o Recife dos anos 1970 ou um futuro distópico.
Quanto à memória, essa fixação com o tema pode ser efeito colateral destes dias de internet e redes sociais, onde grande parte das experiências parece condensado em stories de Instagram que duram 24 horas ou tik toks de 3 minutos. É muita coisa acontecendo ao mesmo tempo de maneira muito dinâmica. E é impossível lembrar de tudo, claro. A seletividade da memória e a escolha do que deve ou merece ser lembrado já está sendo nosso desafio.
O cinema acaba sendo um retrato dos nossos tempos. E são tempos estranhos, pós-pandêmicos e de eterna sensação de perda.
Fonte: saibamais.jor.br



