O ator potiguar César Ferrario estreou na última segunda-feira (16) em A Nobreza do Amor, nova novela das seis da Globo. Na trama, ele vive Fortunato Aragão, delegado e vereador na fictícia cidade de Barro Preto, localizada no interior do Rio Grande do Norte. O trabalho tem sido uma forma de lhe dar rotina e reorganizar a vida após a morte da companheira, a atriz Titina Medeiros (1977-2026), que partiu em janeiro vítima de câncer. A dor ainda lhe atravessa; as lembranças da esposa são constantes. “Mas ela continua em cada alegria”, diz César.
O delegado Fortunato é descrito como um homem rude e desagradável, sempre a serviço dos poderosos de Barro Preto. O personagem é casado com Maria Helena, interpretada por outra potiguar, a atriz Quitéria Kelly. Ferrario, assim como era Titina, tem sido um habitué de obras da Globo nos últimos anos. Já passou por ao menos cinco novelas, além de séries, trabalhos no streaming, cinema e inúmeras peças de teatro. Mas a estreia de uma nova novela, afirma, sempre lhe traz aquele “friozinho na barriga”.
“Apesar de ser mais uma novela, há sempre um ineditismo na experiência. Por mais que já tenha acontecido experiências anteriores, tudo se renova a cada trabalho, é sempre um novo desafio, é sempre um novo tema, é sempre uma nova história, é sempre um novo tempo. E por isso essa vertigem gostosa sempre nos assola”, conta.
César diz que tem sentido satisfação ao realizar o trabalho, desde que se juntou à equipe e também do que tem ouvido nos primeiros dias da trama no ar.
“Estou muito feliz. Eu acredito muito na história da novela, não só por um viés fabular, de divertimento, mas também pela natureza do seu conteúdo.”
A Nobreza do Amor também marca o reencontro de César com Quitéria Kelly. Os dois potiguares já haviam vivido um casal anteriormente em Mar do Sertão (2022).
“Acho que foi uma sorte, por inúmeros motivos. Pela atriz que é Quitéria Kelly, que eu respeito muito, mas também pela pessoa dela, pelas conexões e pela amizade que ela nutre de muito tempo, não só comigo, mas também que mantinha com Titina, já que elas foram parceiras de cena muito tempo, se respeitavam, se amavam”, revela.
“Então eu acho que poder estar aqui do lado de Quitéria, nas circunstâncias que isso aconteceu, me parece até uma providência”, acredita.
Por conta das gravações nos Estúdios Globo, César está morando atualmente no Rio de Janeiro, mas o Rio Grande do Norte nunca lhe saiu da mente e do coração. A casa em Natal, diz, continua do mesmo jeito que deixou ao se mudar temporariamente. Como ator, diz que já houve um período em que almejou se mudar de vez para o Sudeste, por concentrar maiores oportunidades de trabalho.
“Mas eu já passei dos 50, eu já estou querendo fazer cada vez mais um caminho de volta. Acho que estou querendo ir mais para o interior do Rio Grande do Norte ainda, mudar da capital para uma cidade pequena, se fosse obedecer desejos. Então, acho que mudar para cá definitivamente é cada vez mais improvável”, afirma.
Com vasta formação no teatro, Ferrario acumulou peças no grupo Clowns de Shakespeare e hoje é responsável pela Casa de Zoé, idealizada por Titina em 2013 como um ambiente de pesquisa e criação cênicas. O ator gosta de se envolver com tudo: a pesquisa, o trabalho de cena, a direção. Dividir o ofício entre o palco e a tela, diz, é um privilégio.
“Esse espaço daqui nos dá um reconhecimento, sim, pela larga proporção da distribuição do produto, entra em todas as casas e isso é importante para o ator também. Não há como negar. É muito satisfatório. Mas, ao mesmo tempo, também, poder manter esse trabalho artesanal, de estudo, de pesquisa. Enfim, eu acho que esse trânsito oferece a possibilidade do melhor dos dois mundos”, acredita.
Saudade
Desde a perda da companheira com quem viveu por mais de 20 anos, César diz que tem tentado “reorganizar toda essa realidade”. Titina morreu em 11 de janeiro, aos 48 anos, por complicações decorrentes de um câncer no pâncreas. A atriz deixou um legado para a cultura do Rio Grande do Norte e recebeu inúmeras homenagens. Buscando se manter bem enquanto processa o luto, Ferrario diz que a novela tem lhe ajudado a ter uma rotina diária enquanto tenta seguir a vida.
“O trabalho da televisão é um caminho muito programado de acordar, ir para o trabalho, fazer a cena, voltar para casa, decorar o texto, e isso tem sido muito importante para mim enquanto eu reorganizo tudo, porque de fato é algo que a gente olha e ainda não acredita. Todo dia de manhã, quando eu abro o olho, eu lembro como primeira atividade do pensamento e digo ‘não, não é verdade’. Mas, ao mesmo tempo, a vida continua. Ao mesmo tempo, a gente sabe que o correto a fazer é dar continuidade não só à nossa própria existência, mas também a todo esse legado que Titina nos ajudou a construir, ou que ela mesmo construiu e a gente pegou carona, não só nesses espaços televisivos, cinematográficos, como também de toda a estrutura que a gente mantinha e mantém em Natal enquanto realizações teatrais, culturais”, aponta.
O amor pelo forró acompanhava Titina e César. No Instagram do casal, alguns vídeos mostram os dias e noites dos dois cantando e tocando músicas eternizadas nas vozes de Mastruz com Leite, Flávio José e a banda Bicho de Pé. César assumia a sanfona, e Titina a voz.
“Existem muitos tipos de teatro, mas o nosso teatro se rende de uma forma muito feliz. A praça, a rua, a festa, a alegria, a felicidade. Então, quando a gente junta isso com o Nordeste, o forró quase exige estar presente”, conta César, emocionado.
O ator revela que ele e a esposa tinham a ideia, antes mesmo de identificar a doença de Titina, de colocar um “forrózinho de pé de calçada”, planejamento interrompido pela perda da atriz.
“Mas ela continua em cada música, em cada alegria, e eu estou criando coragem aqui para entender como é que a gente vai dar encaminhamento a esse desejo que a gente tinha juntos e que agora eu levo. Mas eu entendo que precisa ser realizado, eu acho que o próximo trabalho que a gente fizer pela Casa de Zoé, eu não sei quando, não sei como, mas certamente vai atender a esse desejo que ficou suspenso.”
Fonte: saibamais.jor.br
