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a metamorfose política de Álvaro Dias

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Ex-prefeito coordenou campanha de Bolsonaro em Natal em 2022, mas depois se disse “aliado do presidente Lula”. Foto: Reprodução

O ex-prefeito de Natal, Álvaro Dias, lançou sua pré-candidatura ao Governo do Estado, no último sábado (21), em evento que teve como maior atração a presença do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), que é pré-candidato à Presidência da República. O ato marcou também a filiação do ex-gestor ao PL, oficializando seu nome como representante do bolsonarismo na disputa estadual de 2026. O movimento sela uma guinada ideológica que reposiciona Álvaro Dias no espectro da política do Rio Grande do Norte. Depois de décadas transitando entre partidos de centro, centro-direita e até mesmo de esquerda, o ex-prefeito se reposicionou ao se apresentar agora como candidato da extrema direita.

A trajetória partidária de Álvaro Dias revela um perfil historicamente pragmático. Ele iniciou a carreira no antigo PMDB, passou pelo PDT e pelo PSDB e, antes de assinar a ficha do PL, foi filiado durante quatro anos ao Republicanos, chegando inclusive a presidir o diretório estadual da legenda.

Álvaro Dias se moldou a diferentes campos políticos

Nesse percurso, o ex-prefeito moldou sua identidade aos diferentes campos políticos pelos quais transitou. De 2003 a 2006, quando exerceu seu único mandato de deputado federal pelo Rio Grande do Norte, ele integrou a base de apoio do primeiro mandato do presidente Lula (PT).

Eleito pelo PMDB em 2022, ele migrou para o PDT em 2003. Em 2004, tornou-se vice-líder do partido fundado pelo líder trabalhista Leonel Brizola (1922-2004).

Ele retornou ao PMDB em 2011, foi eleito deputado estadual pelo partido em 2014 e vice-prefeito de Natal em 2016 na chapa encabeçada pelo ex-prefeito Carlos Eduardo Alves (PSD).

Em 2018, com a renúncia de Carlos Eduardo para concorrer ao Governo do Estado, Álvaro Dias se tornou pela primeira vez prefeito de Natal. Dois anos depois, foi reeleito em primeiro turno para o cargo pelo PSDB.

Após coordenar campanha de Bolsonaro em Natal, Álvaro disse que era “aliado do presidente Lula”

Ex-prefeito coordenou campanha de Bolsonaro em Natal em 2022, mas depois se disse “aliado do presidente Lula”. Foto: Reprodução

Nas eleições de 2022, ele declarou apoio e foi coordenador em Natal da campanha à reeleição do ex-presidente Jair Bolsonaro, que terminou sendo derrotado no segundo turno pelo presidente Lula.

Em outubro de 2023, durante um evento que marcou o lançamento do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC-3) no Rio Grande do Norte, Álvaro Dias, à época recém-filiado ao Republicanos, fez um aceno ao presidente Lula.

Ele elogiou o presidente afirmando que Lula merecia “o respeito e a gratidão do povo nordestino” por ter feito “a maior distribuição de renda da história do Brasil”.

Na ocasião, Álvaro Dias lembrou que o Republicanos, seu então partido, fazia parte da base de apoio do presidente Lula. O ex-prefeito declarou que a legenda estava “com as mãos estendidas para participar desse projeto da construção e da mudança no nosso país”.

Dias depois, em entrevista a uma rádio local, o ex-prefeito reafirmou que ele, assim como o povo nordestino em geral, era grato ao presidente Lula.

Álvaro Dias declarou ainda que, independentemente de quem gostasse ou não, ele se considerava “um aliado do presidente Lula”.

Rejeição ao rótulo de “bolsonarista”

Álvaro Dias, ao lado do ex-presidente Jair Bolsonaro e do senador Rogério Marinho. Foto: Reprodução

Em janeiro passado, um dia depois de o senador Rogério Marinho (PL) anunciar que estava desistindo de concorrer ao Governo do Estado para coordenar a campanha presidencial de Flávio Bolsonaro, declarando apoio à pré-candidatura de Álvaro Dias, o ex-prefeito da capital rejeitou o rótulo de “bolsonarista”.

Ele, que já havia dito que era grato a Lula, dessa vez manifestou sua gratidão ao ex-presidente Jair Bolsonaro pelo “tratamento especial” que afirmou haver recebido dele quando estava na Prefeitura de Natal.

“Não me considero bolsonarista, mas vou carregar sempre dentro de mim um sentimento de gratidão muito grande ao presidente Bolsonaro”, disse, em entrevista a uma rádio local.

Apesar de rejeitar o rótulo de bolsonarista, Álvaro Dias confirmou sua filiação ao partido do ex-presidente Jair Bolsonaro. A ida do ex-prefeito para o PL se tornou pública com o vazamento das anotações sobre a “situação nos estados”, feitas pelo senador Flávio Bolsonaro, durante uma entrevista coletiva concedida pelo presidenciável na sede do partido em Brasília (DF).

SAIBA MAIS: Álvaro Dias prepara filiação ao PL após negar rótulo de bolsonarista

A postura negacionista durante a pandemia

Álvaro Dias acompanhando a montagem do centro de “tratamento precoce” da Covid-19 no ginásio Nélio Dias, Zona Norte de Natal. Foto: Reprodução Redes Sociais

Álvaro Dias, no entanto, deu sinais de sua inflexão política à extrema direita antes de se filiar ao PL para concorrer ao Governo do Estado.

Em junho 2020, ano em que foi reeleito prefeito da capital, Álvaro Dias anunciou nas redes sociais que sua administração iniciaria uma “distribuição em massa” de ivermectina, com “todo o acompanhamento médico necessário”, para fazer o “tratamento preventivo” da Covid-19.

As declarações motivaram a abertura de uma investigação pelo Ministério Público do Rio Grande do Norte (MPRN) para apurar se houve propaganda eleitoral antecipada ou irregular nos atos do então prefeito, que naquele ano era candidato à reeleição.

Em entrevista a uma emissora de televisão à época, Álvaro Dias defendeu a distribuição do medicamento, que, conforme revelaram os estudos científicos, não possuía nenhuma eficácia contra o coronavírus.

Ele afirmou que “existem estudos in vitro [em laboratório], mas se funciona in vitro, deve funcionar em vivos também”.

A Justiça do Rio Grande do Norte, em julho daquele mesmo ano, determinou que a Prefeitura de Natal retirasse a ivermectina do protocolo de tratamento de pacientes com a Covid-19.

Além de distribuir remédio sem eficácia contra o coronavírus, Álvaro Dias também entrou em confronto com a governadora Fátima Bezerra (PT), comandando o boicote contra os decretos sanitários editados pela gestão estadual para frear o avanço da Covid-19 no Rio Grande do Norte.

A postura aproximou Álvaro Dias da agenda negacionista e anticientífica coloca em curso no plano nacional pelo ex-presidente Jair Bolsonaro, que também estimulou o uso de medicamentos sem eficácia, incentivou aglomerações e fez pregação contra a vacinação.

As idas e vindas de Álvaro Dias com Rogério Marinho

Foto: Divulgação

A filiação ao PL também marca um novo capítulo da relação política do ex-prefeito Álvaro Dias com o senador Rogério Marinho. Rompidos desde 2023, quando Álvaro acusou Rogério de mandar cancelar o envio de R$ 40 milhões do Ministério do Desenvolvimento Regional (MDR) para a Prefeitura de Natal, durante o governo do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), eles se reaproximaram em janeiro de 2025.

Na ocasião, Rogério Marinho havia reunido aliados em um almoço na sua casa de praia em Búzios, no município de Nísia Floresta, quando ainda era pré-candidato ao Governo do Rio Grande do Norte.

Entre os presentes ao almoço que se transformou em um verdadeiro comício estavam o próprio Álvaro Dias, o prefeito Paulinho Freire (União) e agora pré-candidato a vice-governadora Babá Pereira (PL), além de deputados federais, ex-deputados, prefeitos e ex-prefeitos de vários municípios potiguares.

Ao se dirigir a Álvaro Dias, Marinho disse que o ex-prefeito de Natal estava “talhado” para ser governador do Rio Grande do Norte. O elogio contrasta com uma declaração de dezembro de 2024 de Rogério sobre Álvaro. À época, o senador afirmou que não tinha como avaliar a gestão do ex-prefeito porque desconhecia a “situação fiscal” da Prefeitura de Natal.

“Eu não posso dar uma nota [à gestão de Álvaro Dias] porque eu não sei de que forma sai aí a questão de finanças, da questão fiscal do município. Eu realmente não tenho acesso a esses dados”, declarou o senador.

Em publicação sobre o evento nas redes sociais, Álvaro Dias disse que se tratou de um “momento de diálogo, troca de ideias e confraternização, mas marcado acima de tudo pelo espírito de união e mudança”.

O tom recente difere das declarações anteriores de Álvaro Dias sobre Rogério Marinho, a quem acusou de dar a determinação ao seu sucessor no Ministério do Desenvolvimento Regional, Daniel de Oliveira Duarte Ferreira, atual chefe de gabinete do senador do PL, para cancelar os convênios com a Prefeitura de Natal.

“Inexplicavelmente para nós, esses convênios que nós esperávamos que íamos [usar para] recuperar nossa orla urbana, pelo menos da Praia dos Artistas até a Praia do Forte e também investir no recapeamento de várias ruas e avenidas da cidade de Natal, não pudemos fazer na época por causa do cancelamento desses convênios”, declarou à época o ex-prefeito em entrevista à imprensa.

“Esses recursos deixaram de chegar para a Prefeitura [de Natal] e só agora nós estamos, depois de todo esse tempo, iniciando essas obras, porque foram cancelados e nós acreditamos, claro, que por uma determinação do ex-ministro Rogério Marinho, atual senador. Para nós foi uma surpresa”, completou Álvaro Dias.

SAIBA MAIS: Depois de acusar Rogério de “sabotar” Natal, Álvaro promete estar com ele em 2026

Acusação de uso da máquina nas eleições de 2024

Foto: Divulgação

Álvaro Dias também é réu na ação movida pelo Ministério Público Eleitoral (MPE) de uso da máquina pública da Prefeitura de Natal nas eleições de 2024.

A denúncia afirma que o ex-prefeito “orquestrou como um todo o esquema eleitoral, valendo-se da máquina pública administrativa municipal” para favorecer a candidatura do prefeito eleito Paulinho Freire (União) e da sua vice, Joanna Guerra (Republicanos), além dos vereadores Daniel Rendall e Irapoã Nóbrega, ambos do Republicanos.

A ação cita que a “tônica presente na quase totalidade dos depoimentos narrados”, colhidos durante a investigação, era que o ex-prefeito “pediria os cargos comissionados e os empregos de terceirizados caso não houvesse apoio aos seus candidatos”.

De acordo com o MPE, “praticamente, todas as suas secretarias municipais, órgãos e entidades de sua gestão realizaram reuniões com seus subordinados diretos (cargos em comissão e empregados públicos) de cunho político” em favor de vereadores e dos candidatos majoritários apoiados pelo ex-prefeito Álvaro Dias.

“Em verdade, moveu-se a máquina pública administrativa municipal para contactar as lideranças comunitárias visando apoiarem o então candidato ao cargo de Prefeito, Sr. Paulinho Freire, e sua vice, a Sra. Joanna Guerra, em troca de serviços públicos a serem prestados em suas respectivas comunidades, bem assim de empregos (terceirizados) na estrutura da administração pública municipal”, apontou o Ministério Público.

SAIBA MAIS: Álvaro Dias “orquestrou” o esquema eleitoral para favorecer a eleição de Paulinho

Gestão desaprovada e obras inacabadas

Foto: Alisson Almeida

Além das denúncias de uso da máquina municipal nas eleições, Álvaro Dias encerrou sua última gestão na Prefeitura de Natal com um rastro de obras inacabadas e desaprovado pela maioria da população.

O Ranking de Aprovação dos Prefeitos de 2024, realizado pelo instituto Atlas Intel, apontou que 50% dos natalenses reprovaram a gestão do pré-candidato a governador do PL.

Álvaro Dias também transferiu a administração municipal ao prefeito Paulinho Freire com menos 46 obras paralisadas ou inacabadas, conforme apontado em relatório da Comissão de Transição, coordenada pela vice-prefeita Joanna Guerra, que foi entregue no início de 2025 ao Tribunal de Contas do Estado (TCE). Além disso, o ex-prefeito deixou uma dívida de quase R$ 900 milhões.

De acordo com o relatório, essas obras estão concentradas nas secretarias municipais de Educação e de Serviços Urbanos. A paralisação delas, ainda segundo o documento, “compromete a infraestrutura e a prestação de serviços, impactando diretamente a população”.

Uma das principais obras inacabadas deixadas pelo ex-prefeito é o Hospital Municipal de Natal, que segue sem funcionar, apesar de ter sido inaugurado no final de dezembro de 2024.

Em novembro do ano passado, durante reunião da bancada federal potiguar, a atual administração municipal disse que, para concluir a obra, precisaria de mais R$ 110 milhões.

SAIBA MAIS: “Herança maldita”: Álvaro Dias deixou dívida de quase R$ 900 milhões em Natal

Fonte: saibamais.jor.br

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