A Galeria Laboratório do Departamento de Artes da Universidade Federal do Rio Grande do Norte, em Natal, recebe até o dia 31 de março de 2026 a exposição “A estética da cannabis no Rio Grande do Norte, desmistificando a planta”. A mostra está aberta ao público durante todo o dia.
A exposição marca a primeira mostra da artista Anum Preta, que convida o público a conhecer uma produção inspirada em sua poética. Integrante do Grupo de experimentação e pesquisa em arte contemporânea Ginga e do grupo de artes integradas Matinta Perê, a artista desenvolve uma pesquisa que articula memória, estética e crítica social a partir da cultura canábica e de suas raízes afro-indígenas.
De acordo com a proposta apresentada, as obras buscam dar vida aos rituais dos chamados “diambeiros”, apontados como parte da história da cultura canábica. A artista destaca que resquícios e adaptações desses rituais ainda existem, mesmo que de forma discreta e distante das autoridades.
Em entrevista à Agência Saiba Mais, Anum detalha que muitos dos objetos presentes nesses rituais carregavam forte dimensão estética e simbólica:
“Cada instrumento utilizado nas rodas de pito era estilizado e enfeitado pelo próprio mestre de cerimônia, que portava a maricá. Com a inspiração da planta, produziam pinturas e desenhos nas cabaças, que eram transformadas em ‘maricás’, e também esculturas de cabeças para a criação dos fornilhos”, explica. Segundo ela, esses elementos evidenciam o conhecimento dos povos afro-indígenas sobre os efeitos psicoativos da planta.
A artista também ressalta que as rodas funcionavam como espaços de sociabilidade entre pessoas marginalizadas. “Desses encontros surgiam gírias e dialetos em torno da cultura canábica, influenciando a moda, a música e práticas culturais como o catimbó no Rio Grande do Norte”, afirma. Com o avanço do preconceito, essas práticas passaram a se distanciar da associação direta com a erva.
A mostra também propõe uma reflexão sobre a origem da cultura canábica no Brasil. “Conhecer a origem da cultura canábica brasileira tem o poder de desconstruir mitos e resgatar memórias”, afirma a artista no texto de apresentação.
Ao abordar a temática da maconha no campo artístico, a exposição sugere uma leitura crítica sobre o tema, especialmente no que diz respeito à criminalização e seus impactos sociais. “O Estado brasileiro tentou acabar com a influência dos povos afro e indígenas. A maconha e o maconheiro sofreram um processo de demonização social e criminalização, reforçado por jornais policiais que criaram a imagem do inimigo da sociedade”, analisa.
Anum também critica os modelos atuais de regulamentação da cannabis medicinal. “O Brasil está regulamentando o comércio da maconha medicinal, colocando o poder sobre a planta nas mãos da indústria farmacêutica. É importante a regulamentação, mas é essencial debater as consequências da criminalização sobre corpos e territórios marginalizados”, afirma. Ela ainda aponta para o encarceramento em massa da população preta e pobre e a ausência de reparação histórica. “Se continuarmos seguindo o exemplo dos Estados Unidos, teremos pessoas brancas lucrando com a maconha, sem nenhuma reparação para as vítimas da guerra às drogas.”
A própria montagem da exposição incorpora esse tensionamento político. A artista relata que tentou obter autorização judicial para expor uma planta viva. “Eu corria o risco de ser incriminada. Como forma de tensionar essas estruturas, optei por expor a planta morta, até o apodrecimento, para provar que ela não seria usada para nada ilícito”, explica. A escolha também busca aproximar o público da materialidade da planta e desconstruir estigmas.
“Falar sobre as raízes dos rituais canábicos é uma forma de devolver ao sagrado práticas e símbolos que foram demonizados, resgatar uma estética apagada por construções racistas”, afirma.
A expectativa da artista é que a exposição provoque debate público. “Espero discutir o racismo institucional em relação à planta e seus usuários. Tornar conhecida essa história sagrada ajuda a desmistificar preconceitos”, diz. Ela também defende a ideia de reparação histórica. “Quero plantar a ideia de que a arrecadação de impostos sobre o comércio da erva pode ser revertida em investimento para territórios marginalizados e na diminuição das desigualdades sociais.”
A visitação é gratuita e segue até o fim do mês, na Galeria Laboratório do Deart/UFRN.
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Fonte: saibamais.jor.br
