A creatina, amplamente associada ao ganho de desempenho físico, vem ganhando novos contornos no campo da ciência. Um estudo desenvolvido na Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN) aprofunda o entendimento sobre como essa substância atua no organismo, especialmente nos rins, e levanta questões importantes para a prática clínica.
A pesquisa, publicada na revista Nutrients, utilizou análises computacionais de larga escala para investigar o comportamento de genes ligados ao metabolismo da creatina em diferentes condições renais. O trabalho identificou 44 genes diretamente envolvidos nos processos de produção, transporte e regulação da substância, revelando uma rede complexa que vai muito além da suplementação esportiva.
Segundo o bioquímico João Paulo Matos Santos Lima, um dos responsáveis pelo estudo, ainda não é possível apontar um único gene como marcador clínico definitivo para avaliar a função renal. “O metabolismo da creatina está intrincado com o metabolismo energético basal e o de aminoácidos, o que pode dificultar o isolamento de um único marcador para avaliar a função renal”, explica em entrevista à Agência Saiba Mais.
Entre os genes analisados, dois chamaram atenção, o GATM, relacionado à síntese de creatina, e o SLC6A8, responsável pelo transporte da substância para dentro das células. De acordo com o pesquisador, a expressão desses genes sugere um comportamento adaptativo em rins comprometidos. “Tecidos renais com função prejudicada diminuem a síntese endógena de creatina e, inicialmente, promovem um aumento da captação desse metabólito pelas células, quando comparados a tecidos saudáveis”, afirma. Ele ressalta, no entanto, que esses achados ainda precisam ser validados por estudos clínicos específicos com suplementação.
A investigação também reforça o papel da creatina no equilíbrio energético das células, incluindo tecidos que não estão diretamente ligados ao desempenho muscular, como os rins. Essa interação ocorre em conexão com sistemas fundamentais, como o metabolismo mitocondrial, o que ajuda a explicar por que alterações nesse ciclo podem impactar a função renal.
Além disso, fatores como alimentação, idade e nível de atividade física podem influenciar a forma como esses genes se expressam no organismo. “Vários fatores podem influir, e isso pode estar correlacionado às diferenças individuais”, pontua João Paulo. Essa variabilidade ajuda a entender por que os efeitos da creatina não são idênticos para todas as pessoas.
Um dos pontos mais relevantes do estudo diz respeito à interpretação de exames laboratoriais. A creatinina, marcador tradicional da função renal, pode apresentar níveis elevados em pessoas que utilizam creatina, sem que isso represente, necessariamente, dano aos rins.
Esse fenômeno, conhecido como “falso positivo”, acende um alerta para a necessidade de avaliações mais criteriosas. Nesse contexto, outros biomarcadores, como a cistatina-C, surgem como alternativas complementares. Ainda assim, o uso desses indicadores também exige cautela. “O cenário ideal é que os dois marcadores sejam considerados pelo profissional, juntamente com a avaliação médica de outros sintomas e de evidências clínicas”, destaca o pesquisador.
Os resultados também abrem espaço para discutir o uso da creatina em contextos clínicos. Em situações específicas, como em pacientes com doença renal crônica ou transplantados, a substância pode assumir um papel estratégico, desde que utilizada sob orientação especializada.
Ainda não há evidências suficientes para definir perfis genéticos que indiquem quem se beneficiaria mais ou quem estaria sob maior risco com a suplementação. “A influência genética seja multifatorial. Até onde podemos afirmar, não se caracterizou associação entre um perfil e benefícios ou riscos”, afirma João Paulo.
Ele reforça que a creatina não deve ser vista como solução universal. “A creatina não é uma panaceia. Se a pessoa possui uma dieta e um regime de exercícios equilibrados, a suplementação nem é necessária.”
A próxima etapa dos estudos envolve a análise de polimorfismos genéticos, variações no DNA que podem alterar a forma como cada organismo processa a creatina. A expectativa é que esse avanço contribua para protocolos mais personalizados e seguros no futuro.
Enquanto isso, o cenário científico segue em construção. Ensaios clínicos internacionais já estão em andamento, mas ainda carecem de uma base mais robusta. Para os pesquisadores, o principal legado até aqui é a ampliação do debate com base em evidências e a redução de interpretações equivocadas.
Mais do que um suplemento popular, a creatina se revela, cada vez mais, uma peça importante no complexo quebra-cabeça do metabolismo humano e da saúde renal
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Fonte: saibamais.jor.br
