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Montagem rompe paradigmas com mulher trans vivendo Maria na Paixão de Cristo

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Foto: Lenilton Lima

Um dos espetáculos mais tradicionais da Semana Santa no Rio Grande do Norte, “A Paixão de Cristo” do Grupo de Teatro União (Gruteu), fundado há mais de 40 anos em São Gonçalo do Amarante, chega à edição deste ano reafirmando uma marca que acompanha sua trajetória: a quebra de paradigmas. Em 2026, o grupo dá mais um passo nesse caminho ao escalar a atriz trans Rebecka de França para interpretar Maria, mãe de Jesus — uma das figuras centrais da fé cristã.

O Gruteu construiu uma história ligada ao teatro sacro, mas também à inovação. Ao longo das décadas, o grupo não apenas manteve viva a tradição das encenações da Paixão de Cristo, como também passou a revisitar o texto bíblico a partir de novas perspectivas.

“Trabalhamos com um texto milenar, mas sempre buscamos atualizá-lo, trazendo leituras contemporâneas”, explica o diretor, dramaturgo e produtor cultural Jota França.

Foto: Lenilton Lima

Essa atualização não se limita à dramaturgia. Ela também se expressa nas escolhas de elenco e nas temáticas abordadas. De acordo com Jota França, a proposta de romper padrões acompanha o grupo há décadas.

“Fomos o primeiro grupo a colocar um Cristo negro em cena, ainda no fim dos anos 1980. Na época, isso gerou muita polêmica, saiu em jornal. Hoje é mais comum, mas naquele momento foi uma ruptura importante”, relembra.

Além de Rebecka, o espetáculo conta neste ano com a participação de mais seis mulheres trans. Foto: Lenilton Lima

Mais recentemente, o grupo também passou a incluir pessoas trans em seus espetáculos. A pioneira foi a atriz Amanda Ramos, natural de São Gonçalo do Amarante, que integrou o elenco a partir de 2022.

Desde então, a presença de artistas trans se consolidou dentro do grupo. Neste ano, são seis mulheres trans no elenco — e uma delas ocupa, pela primeira vez, o papel de Maria.

“Quando pensamos em Rebecka, pensamos primeiro na atriz, no talento dela. Essa foi a prioridade”, afirma Jota França. “A gente sabe que pode gerar debate, mas a arte é para todos. É um espaço de inclusão e de humanização.”

Entre a fé, a arte e o medo

Para Rebecka de França, o convite para interpretar Maria veio como surpresa — e também como desafio. Após iniciar sua transição ainda na adolescência, ela acabou se afastando dos palcos e passou a atuar mais nos bastidores, como produtora cultural.

“Quando surgiu o convite, eu nem acreditei. Não é comum ver pessoas trans em papéis de protagonismo, ainda mais em um espetáculo como esse”, conta.

Ela lembra que, até poucos anos, corpos trans tinham espaço “limitador e excludente” e recebiam “os piores papéis” – isso quando eram escalados. Ela celebrou o fato de o Gruteu dado espaço para “a atuação icônica de seis pessoas trans”.

Foto: Lenilton Lima

Antes de aceitar dar vida à personagem, Rebecka buscou ouvir pessoas próximas, especialmente religiosas, para medir possíveis reações.

“Fiquei com medo de ser interpretado como uma blasfêmia, quando, na verdade, é uma homenagem. Eu rezei pedindo permissão para fazer esse papel”, relata.

Em publicação nas redes sociais, ela contou que “pediu permissão em oração” para interpretar o papel de Maria, a quem chamou de “uma das mulheres mais importantes e maravilhosas que já passaram por nosso planeta”.

A preocupação não é infundada. Em um contexto em que debates sobre gênero e religião frequentemente geram tensões, Rebecka reconhece o receio de rejeição.

Foto: Lenilton Lima

“A gente vive em um mundo em que tudo pode virar motivo de ataque. Eu ainda tenho medo, não vou mentir. Mas estou enfrentando esse medo”, afirma.

Apesar disso, a atriz também destaca o acolhimento dentro do grupo e a recepção positiva do público nas primeiras apresentações.

“Disseram que foi emocionante, que as pessoas ficaram tocadas. Para mim, isso já é muito importante. É sinal de que consegui transmitir o que Maria representa.”

Um espetáculo sob novas perspectivas

Foto: Lenilton Lima

A montagem deste ano, intitulada “A Paixão de Cristo – Presença”, segue a linha de releituras adotada pelo Gruteu nos últimos anos.

O espetáculo é uma adaptação de “Raboni”, texto anterior de Jota França. A encenação deste ano traz a narrativa a partir da ótica das testemunhas da ressurreição — especialmente mulheres e discípulos que permaneceram ao lado de Jesus.

A escolha dialoga com uma proposta mais ampla de dar visibilidade a personagens historicamente secundarizados nas narrativas tradicionais.

Em 2025, por exemplo, o grupo já havia colocado Maria Madalena no centro da história. Agora, o protagonismo simbólico de Maria ganha uma nova camada de significado com a interpretação de uma mulher trans.

Para o diretor, essas escolhas não descaracterizam o conteúdo religioso, mas ampliam suas possibilidades de leitura.

“A gente mantém os elementos essenciais da história, mas traz uma repaginada, uma reflexão. A arte também serve para provocar, para fazer pensar”, defende.

Tradição itinerante e resistência cultural

Foto: Lenilton Lima

Além das inovações, o grupo mantém outra característica marcante: a itinerância. Diferente de muitas encenações que se concentram em um único espaço, o grupo percorre diferentes cidades durante a Semana Santa, levando o espetáculo a diversos públicos do Rio Grande do Norte.

Neste ano, a turnê inclui apresentações em São Gonçalo do Amarante, Macaíba e São Pedro. A estreia aconteceu na última terça-feira (31), no Santuário Dos Mártires de Uruaçu.

A última encenação será no Domingo de Páscoa (5), no Parque das Fontes, no Centro de São Gonçalo do Amarante. Ao todo, cerca de 86 pessoas estão envolvidas na produção, entre elenco e equipe técnica.

Manter uma estrutura desse porte, no entanto, não é simples. O financiamento depende da venda de apresentações para prefeituras, além de editais e leis de incentivo.

“Fazer cultura no Brasil ainda é um ato de resistência. Apesar dos avanços, as dificuldades continuam”, afirma Jota.

Ainda assim, é justamente essa combinação entre tradição e ousadia que ajuda a explicar a longevidade do Gruteu. Nascido no fim dos anos 1970, dentro da paróquia de São Gonçalo do Amarante, através da influência da congregação de freiras “Filhas do Amor Divino”, o grupo se tornou independente ao longo do tempo, sem perder o vínculo com o teatro sacro.

O grupo está inserido em uma tradição mais ampla do município, que o próprio diretor Jota França define como “Cidade das Paixões”. O título faz referência à forte presença de grupos teatrais dedicados à encenação da Paixão de Cristo em São Gonçalo do Amarante, que já chegou a reunir mais de dez coletivos atuando simultaneamente.

Atualmente, quatro grupos mantêm essa tradição viva no município, com montagens anuais durante a Semana Santa. O Gruteu se destaca nesse contexto não apenas pela longevidade, mas também pela proposta itinerante e pelas inovações que introduz a cada nova montagem.

Hoje, ao apostar em uma leitura mais inclusiva e diversa da Paixão de Cristo, o grupo reafirma seu papel não apenas como guardião de uma tradição, mas como agente de transformação social.

Para Rebecka, que além de atriz é dançarina, professora mestra em Geografia e coordenadora de Diversidade Sexual e Gênero da Secretaria Estadual de Mulheres, Juventude, Igualdade Racial e Direitos Humanos (Semjidh), essa oportunidade carrega um significado que vai além do palco.

“Durante muito tempo, vimos pessoas cis interpretando personagens trans. Agora, também é importante que a gente ocupe outros espaços. Estar ali, vivendo o papel de Maria, é uma forma de mostrar que a gente também pode”, diz.

Entre a emoção da cena e a tensão fora dela, a atriz resume o momento com sinceridade: “É com medo mesmo. Mas é também com coragem.”

Fonte: saibamais.jor.br

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