A 23ª edição do Prêmio Hangar de Música, realizada na noite da última terça-feira (14), no Teatro Alberto Maranhão, transformou a premiação em um espetáculo marcado por forte carga simbólica, estética afrofuturista e protagonismo da cultura negra potiguar.
A abertura já indicava o tom da noite. Uma roda de capoeira conduziu o público do pátio para dentro do teatro, criando uma espécie de cortejo. Em seguida, uma intervenção com holograma de Naná Vasconcelos, homenageado da edição e eleito 9 vezes pela revista Downbeat Magazine o melhor Percussionista do Mundo, estabeleceu um diálogo entre tecnologia, memória e ancestralidade. A cena foi acompanhada por vocais e percussão ao vivo, uma maneira de conectar o passado de uma maneira digital.
Ao longo da cerimônia, o legado de Naná atravessou diferentes momentos. A viúva do artista subiu ao palco para receber a homenagem, em uma das passagens mais emocionantes da noite. Ele relembra uma frase dele: “eu sou o Brasil que o Brasil não conhece”, que ecoou como síntese do espírito da edição.
A secretária de Cultura do Rio Grande do Norte, Mary Land também esteve presente e destacou a importância de políticas públicas para o setor, mencionando iniciativas como a Política Nacional Aldir Blanc (PNAB): “O mais difícil na cultura é dar continuidade. Esse prêmio é sobre memória. Muito feliz em estar aqui e parabéns ao Hangar, e aos indicados.”
Entre as performances, um dos pontos altos foi a interpretação de “A Mulher do Fim do Mundo”, eternizada por Elsa Soares, apresentada de forma intensa e emocionante, arrancando aplausos prolongados da plateia. Outro momento de destaque foi a performance de Pretta Soul, Ale Du Black e Oya Iyalê, que apresentaram um medley de canções.
A noite também foi marcada pela diversidade de vencedores e pela valorização de diferentes territórios da cena potiguar. O grupo Sourebel, ao vencer na categoria “Banda do Ano”, fez questão de ressaltar o bairro do Bom Pastor, na zona Oeste de Natal, destacando a importância da periferia na produção cultural da cidade.
Na categoria Cultura Negra, um dos picos da noite foi a vitória de Ale Du Black, celebrada com forte reação do público. Já no segmento popular, Roberto Cantor conquistou o prêmio de Artista Popular do Ano e protagonizou um dos momentos mais carismáticos da cerimônia ao cantar e interagir com a plateia durante seu discurso de agradecimento, incluindo uma interpretação que fez referência à cantora Cyndi Lauper.
Os grandes destaques da noite foram o grupo Taj Ma House, vencedor nas categorias “Música do Ano” e “EP do Ano”. A instrumentista Elisa Bacche, integrante da banda, também foi premiada como “Instrumentista do Ano”. No discurso, o grupo, que surgiu na cena noturna da Ribeira, ressaltou o papel fundamental de casas noturnas e boates na consolidação da música independente no estado.
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Já o prêmio de “Revelação do Ano” ficou com a banda Bixanu, que animou o público com uma apresentação marcada pela energia do rock. No palco, os integrantes destacaram a importância da Casa do Rock, em Parnamirim, como espaço essencial para a circulação e o fortalecimento do trabalho autoral do grupo.
O encerramento ficou por conta do pianista Jonathan Ferr, destaque nacional da premiação, com o espetáculo “Experiência Cura”. Reconhecido por fundir jazz, hip hop, neo soul e música eletrônica, o artista constrói uma sonoridade que dialoga diretamente com o afrofuturismo.
No palco, apresentou um dos momentos mais imersivos da noite, com vocais distorcidos, pequenos interlúdios narrativos entre as faixas e uma performance intensa ao piano. O resultado foi um show que envolveu completamente o público e reforçou a proposta estética e sensorial do trabalho.
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Fonte: saibamais.jor.br
