As chuvas recentes em Natal reacenderam um alerta que vai além dos alagamentos e do trânsito comprometido na capital, a fragilidade da engorda da praia de Ponta Negra diante de eventos climáticos mais intensos. Para o professor de Engenharia Civil e Ambiental da UFRN, Venerando Eustáquio, o cenário atual expõe um problema estrutural grave e reforça que a obra já dá sinais de desgaste acelerado.
Segundo o especialista, em entrevista à Agência Saiba Mais, o impacto das chuvas sobre a faixa de areia artificial é técnico, previsível e preocupante. Ele afirma que precipitações prolongadas, especialmente quando se acumulam por mais de 24 horas, comprometem diretamente a estabilidade e a durabilidade da engorda ao acionar dois processos simultâneos de erosão: o escoamento superficial da água da chuva sobre o aterro e a exfiltração do lençol freático, que passa a empurrar sedimentos em direção ao mar.
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“Na Praia de Ponta Negra, as chuvas exercem um papel crítico e multifatorial na degradação estrutural do aterro arenoso artificial”, afirma Venerando. “Esse impacto se manifesta, fundamentalmente, por duas vias hidrodinâmicas integradas, o escoamento superficial urbano, infelizmente lançado diretamente sobre o aterro, e a dinâmica de exfiltração do lençol freático, carreando sedimentos para o mar.”
Na prática, o que o professor descreve é um processo de desgaste contínuo da estrutura. De um lado, a água da chuva que escorre da cidade deságua sobre a faixa de areia e escava a superfície do aterro. De outro, o solo encharcado eleva o nível do lençol freático e favorece a saída dessa água subterrânea pela praia, arrastando sedimentos para o oceano. O resultado, segundo ele, é a redução progressiva da vida útil da engorda.
A avaliação técnica contraria o discurso adotado pela Prefeitura de Natal desde os primeiros alagamentos registrados na área. Desde a entrega da obra, no início de 2025, a formação de grandes poças na faixa de areia, classificadas pela gestão municipal como “espelhos d’água”, tem sido tratada como uma ocorrência prevista dentro do comportamento da nova orla. Para Venerando, no entanto, a leitura não se sustenta.
“O que a Prefeitura de Natal chama de ‘situação esperada’, na verdade, não deveria ser avaliado desse modo, uma vez que o alagamento que aconteceu imediatamente após a finalização da engorda causou uma fragilização imensa no aterro”, disse o professor.
A preocupação aumenta porque, além da chuva, o período também traz o risco de ressacas e marés mais energéticas, combinação que pode agravar de forma significativa a erosão da faixa de areia. Para o especialista, esse é o ponto mais crítico do atual momento.
“Existe um risco iminente e elevado de perda volumétrica acelerada do aterro hidráulico e de danos estruturais severos à infraestrutura costeira instalada”, alerta. “A ocorrência de volumes elevados de precipitação está intrinsecamente acoplada a condições adversas e altamente energéticas na interface oceano-atmosfera.”
Na avaliação dele, a chuva não atua isoladamente. Quando o aterro já está fragilizado pelo escoamento superficial, a chegada de ventos fortes, maré alta e ressaca intensifica o processo erosivo e amplia o risco de perdas mais severas. “Como essa dinâmica do oceano já encontra o aterro em processo erosivo causado pelo escoamento da água da chuva sobre a face da praia, a situação se agrava muitíssimo”, resume.
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O alerta vem no mesmo dia em que Natal registrou 31 pontos de alagamento, segundo a Secretaria de Mobilidade Urbana (STTU). Desse total, 11 foram considerados intransitáveis e outros 20 apresentaram circulação parcial. Entre os pontos mais críticos esteve a Rua Dr. José Gonçalves, em Lagoa Nova, onde um carro chegou a ficar parcialmente submerso. Também houve bloqueios em vias de bairros como Planalto, Rocas e Cidade da Esperança, além de retenções em corredores importantes da capital.
Para Venerando, as possibilidades de resposta imediata são limitadas. Segundo ele, intervenções emergenciais em meio ou logo após eventos extremos tendem a ser ineficazes, já que a própria energia do sistema costeiro impede qualquer estabilização rápida.
“No curto prazo, as opções de intervenção mitigatória direta são quase nulas e, em sua expressiva maioria, ineficazes e paliativas”, afirma. “Durante ou imediatamente após eventos meteorológicos e oceanográficos extremos, a elevada energia do sistema impede a estabilização de qualquer obra emergencial de contenção no perfil ativo da praia.”
A saída, segundo ele, passa por um redesenho técnico mais robusto da obra e por uma estratégia de médio e longo prazo baseada em três eixos: monitoramento rigoroso da perda de areia, reformulação completa do sistema de drenagem e planejamento de nova recomposição sedimentar.
O primeiro passo, defende o professor, é medir com precisão o que já foi perdido. Para isso, ele recomenda a implantação de um programa contínuo de monitoramento topobatimétrico, capaz de mapear a erosão e calcular o volume de sedimentos removidos. Em seguida, aponta como essencial remodelar o sistema de drenagem para impedir que águas pluviais continuem sendo lançadas sobre a face da praia. Por fim, afirma que será necessário planejar tecnicamente uma nova reposição de areia, desta vez com modelagem costeira mais refinada.
“O planejamento técnico e financeiro para a recomposição sedimentar do volume de areia perdido será inevitável”, afirma. “Mas essa nova injeção de sedimentos exigirá uma calibração refinada na modelagem de engenharia costeira.”
A nova rodada de críticas surge em meio ao avanço de questionamentos sobre a própria execução da obra. O projeto da engorda de Ponta Negra é alvo de representação no Tribunal de Contas do Estado (TCE-RN), que pede apuração de possíveis irregularidades contratuais e ambientais envolvendo a execução do empreendimento.
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Fonte: saibamais.jor.br



