“Essa é nossa realidade onde a gente fica jogados nas calçadas esperando o aplicativo tocar.” Esse relato é de Alexandre Silva, que resume a paisagem cotidiana de quem trabalha sobre duas rodas em Natal. Entre uma corrida e outra, motoboys e motoristas de moto por aplicativo ocupam calçadas, postos de gasolina e esquinas da cidade à espera de uma notificação no celular. O tempo de espera é parte do trabalho, embora não apareça na corrida paga, no valor da entrega ou na tela do aplicativo.
A rotina de quem vive da moto expõe um retrato cada vez mais comum nas cidades brasileiras: jornadas longas, renda instável, custos arcados do próprio bolso e uma rotina marcada por riscos permanentes no trânsito. Em Natal, esse cenário tem ganhado contornos ainda mais duros com o aumento dos acidentes envolvendo motociclistas e a falta de estrutura para quem depende da moto para garantir o sustento.
Presidente da Associação dos Trabalhadores de Aplicativo por Moto e Bike de Natal e Região Metropolitana (Atamb), Alexandre Silva trabalha com moto desde 2018. Ele conta, em entrevista à Agência Saiba Mais, que entrou nos aplicativos como alternativa diante da falta de oportunidades no mercado formal, atraído pela promessa de autonomia e flexibilidade.
“Comecei porque era uma forma rápida de conseguir renda, já que o mercado formal estava fechado para mim. A moto parecia uma solução: autonomia, flexibilidade. Mas logo percebi que a liberdade é relativa, porque o aplicativo controla tudo, preço, tempo, rota”, afirma.
A rotina, segundo ele, começa cedo e termina tarde. O dia é atravessado por horas no trânsito sem qualquer garantia de renda ao fim da jornada.
“Passo muitas horas na rua, enfrentando trânsito, sol forte, chuva e até insegurança. A moto vira extensão do corpo, mas também é um risco constante: qualquer descuido pode significar acidente.”
A promessa de flexibilidade, frequentemente usada pelas plataformas para definir o trabalho por aplicativo, esbarra na realidade descrita por Alexandre. Sem vínculo formal, entregadores e condutores não têm férias, 13º, licença remunerada ou proteção previdenciária. Também arcam com combustível, manutenção, seguro, alimentação e internet, custos indispensáveis para trabalhar, mas que não entram na conta das empresas.
“Gostaria que entendessem que não somos ‘empreendedores’ livres, mas trabalhadores sem proteção. Cada entrega carrega horas de esforço invisível, riscos e custos que não aparecem na tela do aplicativo”, diz.
Foi também a falta de emprego formal que levou Marcos Vinícius Raposo a começar a trabalhar com a moto. Entregador por aplicativo desde 2020, ele entrou na atividade durante a pandemia, quando viu nas duas rodas uma possibilidade imediata de renda.
“Comecei a rodar por conta da pandemia, onde infelizmente as oportunidades de emprego estavam escassas e foi na moto onde vi a oportunidade de trabalhar e levar sustento para minha família.”
A jornada de Marcos começa antes mesmo de ligar os aplicativos. Primeiro, ele leva a esposa ao trabalho. Depois, ativa as plataformas e aguarda uma chamada. A rotina pode se estender por cerca de 12 horas antes do retorno para casa.

Os riscos, diz ele, acompanham toda a jornada:
“Muitas vezes saímos de casa com a incerteza de voltar.”
Marcos relata que, além do perigo no trânsito, faltam condições mínimas para atravessar o dia de trabalho. Não há pontos de apoio adequados para se proteger da chuva, carregar o celular ou esquentar a comida levada de casa.
“A falta de apoio dos apps e do governo pesa muito. Não temos um ponto de apoio adequado para nos proteger em momentos de chuva, carregar nossos celulares ou até mesmo esquentar um alimento.”
Mesmo com a dureza da rotina, ele reconhece que a flexibilidade de horário permite conciliar o trabalho com momentos importantes em família. Ainda assim, diz que o custo é alto e o reconhecimento, baixo.
“Gostaria que as pessoas parassem de ter tanto preconceito contra a nossa classe. Muitas vezes acontece um acidente e, mesmo quando não somos culpados, as pessoas julgam dizendo que somos culpados.”
Dados
O risco apontado pelos trabalhadores aparece também nas estatísticas. Em Natal, o número de acidentes envolvendo motocicletas cresceu 12,2% entre janeiro e agosto de 2025, na comparação com o mesmo período do ano anterior. Foram 889 ocorrências, contra 792 em 2024, segundo dados divulgados por autoridades de trânsito e do Ministério Público.
A pressão sobre a rede pública de saúde também revela o peso dessa realidade. Só no primeiro semestre de 2025, o Hospital Monsenhor Walfredo Gurgel atendeu 4.329 motociclistas feridos em acidentes de trânsito no Rio Grande do Norte, média de um por hora. Esse volume fez os acidentes de moto superarem, pela primeira vez, os atendimentos por AVC e quedas no hospital.
Mais do que um dado de trânsito, os números ajudam a explicar a vulnerabilidade de uma categoria que transformou a motocicleta em ferramenta de trabalho, sem que a cidade, o poder público e as empresas acompanhassem essa mudança com políticas de proteção.
É nesse contexto que trabalhadores do setor articulam a criação do Sindicato dos Trabalhadores Entregadores e Condutores de Veículos de Duas Rodas por Aplicativo e Meios Digitais do Rio Grande do Norte (Sindatamb/RN), iniciativa surgida a partir da experiência acumulada na Atamb. A avaliação da categoria é que o formato sindical pode ampliar a capacidade de negociação com o poder público e fortalecer a luta por regulamentação e melhores condições de trabalho.
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A principal reivindicação é simples, o reconhecimento da profissão.
Por trás de cada entrega e de cada corrida, há uma jornada atravessada por pressa, desgaste, exposição e espera. Há trabalhadores que sustentam a cidade em movimento, mas seguem sem ponto de apoio, sem proteção e sem garantias.
No Dia do Trabalhador, o que esses profissionais reivindicam é o essencial, melhores condições de trabalho e o direito de exercer sua atividade com mais dignidade e proteção.
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Fonte: saibamais.jor.br