Ainda em fase de pós-produção, sem estreia marcada e com apenas um recorte de sete minutos pronto para exibição, Paradiso já começou a circular onde o cinema negocia seu futuro. O longa potiguar de ficção científica dirigido por Davi Revoredo foi selecionado para o VDF Showcase, vitrine de mercado da VDF Connection dentro do Marché du Film, o maior mercado de cinema do mundo, realizado paralelamente ao Festival de Cannes. Antes mesmo de chegar ao público, o filme produzido no Rio Grande do Norte passa a disputar atenção em um dos espaços mais estratégicos da indústria audiovisual internacional.
A seleção coloca Paradiso em um circuito menos glamouroso que o tapete vermelho, mas decisivo para o destino de um filme: o das reuniões com distribuidores, agentes de venda, programadores de festivais e potenciais parceiros de circulação. Em Cannes, Paradiso não terá exibição oficial no festival. O que será apresentado é um pitching, uma apresentação fechada do projeto para profissionais do setor, com fala do diretor Davi Revoredo e da produtora executiva Thalita, além de um teaser e de sete minutos do longa. É nesse ambiente, longe do brilho da première e perto das mesas de negociação, que o filme potiguar tenta garantir o que vem depois: festivais, contratos e circulação internacional.
“Vai ser exibido um trecho de sete minutos e um teaser numa sessão fechada para pessoas da indústria. Essas pessoas são programadores de festivais, agentes de vendas, distribuidores internacionais também, e a gente espera que o filme chame a atenção dessas pessoas para que a gente consiga formar mais parcerias e levar o filme para mais longe”, explica Revoredo em entrevista à Agência Saiba Mais.
A presença no Marché du Film já começa a produzir efeitos antes mesmo da viagem. Depois de ser incluído em uma matéria da Variety sobre os filmes selecionados para o VDF Showcase, Paradiso passou a receber contatos de festivais internacionais interessados em exibir o longa. Os nomes ainda são mantidos em sigilo, mas, segundo o diretor, as conversas já começaram. “Depois que foi publicado, a gente já recebeu e-mail de festivais, que eu não posso falar agora o nome porque ainda está apenas em conversas, mas nós já recebemos propostas de festivais para exibir o filme. São festivais muito bons, inclusive.”
A menção na Variety, uma das publicações mais influentes da indústria audiovisual, funcionou como selo de validação para um projeto ainda inédito. “É algo extraordinário a gente sair na maior revista de cinema do mundo, que é uma vitrine enorme, uma validação midiática gigantesca para nós”, diz Revoredo. A visibilidade importa porque, no mercado internacional, o caminho de um filme começa muito antes da estreia. Ele se constrói em laboratórios, mostras de mercado, encontros fechados e rodadas de negociação como a que Paradiso agora acessa.
Para um longa realizado fora do eixo tradicional do audiovisual brasileiro, a seleção tem peso simbólico e prático. Paradiso é o primeiro longa-metragem da Com Arte Cultural e marca a estreia de Davi Revoredo na direção de longas. Também é um dos projetos viabilizados pela Lei Paulo Gustavo no Rio Grande do Norte, política que, para o diretor, ajudou a produzir uma inflexão histórica no setor local.
“É um momento histórico no audiovisual potiguar, porque existem cinco longas-metragens sendo produzidos neste momento e todos esses filmes vão sair praticamente ao mesmo tempo”, afirma. “Isso representa uma virada.”
Filmado em Natal com equipe inteiramente potiguar, Paradiso mobilizou dezenas de profissionais e foi realizado com orçamento de R$ 1,5 milhão, abaixo do piso médio nacional para longas de ficção. Para Revoredo, o desempenho do filme até aqui ajuda a dimensionar o potencial do audiovisual potiguar, mesmo em condições limitadas.
“Aqui no Rio Grande do Norte a gente faz muito com pouco, mas a gente não quer fazer para sempre com pouco”, diz. “Esse investimento que está abaixo da média nacional já está rendendo frutos muito bons. Então imagine o que seria possível fazer se a gente tivesse um investimento dentro da média nacional.”
O argumento de Paradiso acompanha Isa, personagem que perde a mãe e herda suas dívidas. Na trama, a morte não encerra o vínculo: a mãe é digitalizada por uma big tech e enviada a um paraíso virtual, onde continua existindo como inteligência artificial. A partir dessa premissa, o longa cruza ficção científica, luto, precarização do trabalho e tecnologia. Para Revoredo, é justamente essa combinação que ajudou o filme a atravessar fronteiras antes mesmo de ser lançado.
“Eu acho que o que pesou para que o filme fosse levado para lá é muito a temática do filme. É um filme muito urgente, que fala sobre inteligência artificial, fala sobre a precarização do trabalho, sobre relação mãe e filha também, que são temas universais.”
Se para o diretor a ida a Cannes representa uma abertura de mercado, para a atriz Vênus de Morais, protagonista do longa, a seleção também reposiciona o que pode ser imaginado a partir do cinema feito no interior do Nordeste.
“Eu penso que a presença de Paradiso em Cannes é a prova viva de que o nosso audiovisual potiguar, nordestino e brasileiro tem um potencial gigantesco”, afirma. “Ver que essa magia, porque pra mim audiovisual é um pouco de magia, está ultrapassando mares e alcançando o maior festival internacional de audiovisual é surreal.”
Vênus interpreta Isa e vê no filme não apenas uma ficção distópica, mas uma experiência de deslocamento simbólico. Travesti negra de 26 anos, nascida no interior do Rio Grande do Norte, ela lê a presença de Paradiso em Cannes como uma fissura em estruturas que historicamente limitaram quem pode ocupar o centro da cena.
“Protagonizar Paradiso, sendo um filme que nasce no interior do Nordeste, que se propõe a criar um universo distópico com um elenco potiguar, é uma experiência potente o suficiente para mudar a sua vida”, diz. “Eu não quero ser a única. Quero que essas histórias, essas artistas, esses artistas que estão por aí possam sonhar cada vez mais e realizar isso.”
Paradiso segue em busca de parceiros para concluir sua trajetória de circulação. A ida ao Marché du Film é parte desse esforço. O filme ainda não está pronto, mas já começou a ser visto por quem decide o que atravessa fronteiras. E, para um longa potiguar de ficção científica feito com orçamento enxuto, isso já muda de escala o tamanho da estreia.
SAIBA MAIS: Filme potiguar “Paradiso” aborda IA e encerra gravações com festa
Fonte: saibamais.jor.br
