“Samanda é Fátima”. Essa é a frase que a militância do PT repete desde que a vereadora foi anunciada para substituir a governadora como pré-candidata do partido ao Senado nas eleições de 2026. O slogan sintetiza a estratégia da legenda: reforçar a identificação entre as duas para transferir o capital político da líder petista à sua escolhida. A ligação entre Samanda Alves e Fátima Bezerra, no entanto, não vem de agora.
Os caminhos delas se cruzaram há mais de duas décadas, na correria da militância fazendo campanha nas ruas. O ano era 2002. O presidente Lula seria eleito pela primeira vez, Fátima se tornaria a deputada federal mais votada do RN. Samanda chamou a atenção dela entregando panfleto “pra cima e pra baixo”, como diz a vereadora, pilotando sua Honda Biz. “Eu era danada”, conta a atual presidente estadual do PT.
Samanda diz que começou a acompanhar mais de perto a atuação de Fátima, que naquele ano conquistara uma cadeira inédita para o PT do Rio Grande do Norte, com mais de 160 mil votos. Passada a campanha, depois de se formar em Engenharia da Computação, a militante “danada” foi trabalhar na área de informática no escritório do mandato da então parlamentar em Natal.
Logo passou a cuidar da agenda de Fátima, a quem assessorou durante 20 anos na Câmara dos Deputados, no Senado Federal e no Governo do Rio Grande do Norte.
Esteve na linha de frente da reeleição de Fátima em 2010, quando foi a deputada federal mais votada da história do Rio Grande do Norte, com mais de 220 mil votos. Depois, participou da vitoriosa campanha ao Senado em 2014 e das disputas pelo Governo do Estado em 2018 e 2022.
Além de assessorar Fátima, Samanda também foi coordenadora nacional de Políticas LGBT e atuou no Conselho Nacional de Combate à Discriminação LGBT durante a gestão da ex-presidente Dilma Rousseff (PT).
Em 2022, foi candidata pela primeira vez a deputada federal, mas ficou na primeira suplência da Federação Brasil da Esperança, formada pelo PT, PV e PCdoB. Após a primeira experiência como candidata, voltou a atuar no Legislativo no cargo de chefe de gabinete do deputado estadual Francisco do PT.
Elegeu-se vereadora de Natal em 2024, com 5.189 votos. No ano seguinte, ao lado da deputada estadual Isolda Dantas, foi eleita presidente do diretório do PT-RN. Em março, após Fátima anunciar que estava saindo da corrida pelo Senado em 2026, Samanda foi indicada pela governadora como sua substituta na disputa.
Samanda destaca semelhanças da sua trajetória com a de Fátima

Até assumir esse protagonismo, a vereadora percorreu uma caminhada que, mantidas as devidas proporções, guarda semelhanças com a trajetória da governadora Fátima Bezerra.
“A principal semelhança é a nossa origem. Nós somos mulheres, nordestinas e filhas de trabalhadores. Nossas trajetórias se parecem muito com a da maioria do povo brasileiro: não nascemos em berço de ouro, viemos de famílias simples e apostamos na educação como caminho para transformar a nossa realidade”, diz.
Samanda lembra que, assim como a governadora Fátima Bezerra, ela também precisou deixar a cidade onde nasceu – Mossoró – para estudar em Natal. “Eu tinha muita vontade de ajudar minha família”, conta.
Na capital potiguar, ela estudou na antiga Escola Técnica Federal do RN (ETFRN), atual Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do RN (IFRN), onde iniciou sua militância no movimento estudantil.
Fátima, por sua vez, nasceu em uma família humilde de Nova Palmeira (PB) e mudou-se ainda na adolescência para Natal, no início dos anos 1970, onde se formou em Pedagogia pela UFRN. Ganhou projeção como dirigente do Sindicato dos Trabalhadores em Educação Pública do Rio Grande do Norte (Sinte-RN), iniciou sua carreira política filiando-se ao PT em 1981 e foi eleita deputada estadual em 1994.
Para Samanda, as semelhanças entre elas não se restringem à origem humilde de ambas, mas também ao “jeito de fazer política”.
“Fátima sempre foi uma referência pra mim, pela forma como ela fez política desde o início, com trabalho, coragem e os pés no chão, sem nunca esquecer as nossas origens nem as razões pelas quais lutamos”, narra ela que, assim como a governadora, sempre foi filiada ao PT.
“Foi na luta que fui me aproximando do PT. De lá pra cá, já são quase 30 anos de filiação. Nunca mudei de partido, nunca mudei de lado, sempre fui movida pela luta coletiva e pelo enfrentamento das injustiças”, acrescenta.
O desafio de ser “a nova Fátima Bezerra”
A pré-candidata a senadora afirma que a convivência com a governadora foi uma “escola política” que lhe ensinou “o valor da escuta, da persistência e do significado de ser mulher na política, especialmente quando se vem das camadas populares, enfrentando desafios que muitas vezes não são percebidos pela maioria das pessoas”.
O desafio de ser “a nova Fátima Bezerra” não assusta Samanda. A comparação com a governadora, segundo ela, é motivo de “orgulho”. A vereadora afirma saber que “cada trajetória é única”, mas diz construir seu caminho “com os mesmos valores” da maior liderança do PT do Rio Grande do Norte.
“Nós fazemos parte do mesmo projeto político, que olha para a classe trabalhadora, para quem mais precisa e que acredita em um país mais justo e menos desigual. É isso que nos conecta”, ressalta.
Ela assegura que está preparada para ocupar a cadeira que um dia foi de Fátima no Senado, mas acrescenta que encara a missão “com muita humildade e responsabilidade”.
“A minha trajetória não começou agora. Eu dediquei mais de 20 anos da minha vida a percorrer o Rio Grande do Norte, trabalhando ao lado da governadora Fátima Bezerra e conhecendo de perto a realidade do nosso povo. Isso me deu experiência, capacidade de escuta e, principalmente, compromisso”, afirma.
Samanda pontua que, além do preparo, considera que os princípios também foram fundamentais para nortear a decisão de concorrer ao Senado.
“A gente vive um momento em que isso está cada vez mais raro na política. Eu sei exatamente de que lado estou. O Senado estará no centro da disputa política nos próximos anos e o nosso estado precisa de uma representação firme, que defenda a democracia, os direitos do povo e a soberania do Brasil”, avalia.
“Tentaram tirar a cadeira que o PT do RN voltaria a ter no Senado”, diz Samanda
Ela cita que “tentaram tirar a cadeira que o PT do RN voltaria a ter no Senado, mas não vão conseguir”, numa referência ao que foi considerada uma “traição” do vice-governador Walter Alves (MDB).
Em janeiro, Walter anunciou que não assumiria o Governo do Estado se Fátima renunciasse, como era o previsto, para concorrer ao Senado. Além disso, ele comunicou seu rompimento político com o PT para apoiar a pré-candidatura a governador do ex-prefeito de Mossoró Allyson Bezerra (União Brasil).
O movimento do vice-governador inviabilizou a renúncia de Fátima. Para não correr o risco de perder o governo para a oposição em uma eleição indireta que se realizaria na Assembleia Legislativa do Rio Grande do Norte (ALRN), ela decidiu permanecer no cargo até dezembro de 2026.
Em uma “Carta ao Povo Potiguar”, divulgada em meados de março, a governadora disse que não colocaria em risco seu “compromisso com o RN” em troca de um “cargo no Senado”.
“A coragem sempre me acompanhou”, escreveu a governadora, que justificou sua permanência no cargo afirmando que a escolha estava acima de projetos pessoais. Fátima disse que considerava a disputa pelo Senado Federal como “legítima, esperada, necessária”, mas assegurou que não se guiava “por oportunismo ou interesse próprio”.
Fátima atribui saída da disputa pelo Senado a uma “manobra das velhas elites”
Ao participar recentemente do 8º Congresso Nacional do PT, realizado em Brasília (DF), Fátima manifestou confiança na chegada de Cadu Xavier, pré-candidato do partido a governador, ao segundo turno no RN e na eleição de Samanda para o Senado.
A governadora atribuiu sua saída da disputa eleitoral ao que chamou de “manobra das velhas elites”, mas afirmou que o movimento não conseguirá “tirar a cadeira de senador que é do PT e do povo do Rio Grande do Norte”.
Samanda faz eco às palavras de Fátima: “A gente sabe que a governadora não disputará essa eleição porque, mais uma vez, colocou os interesses do povo potiguar acima de qualquer projeto pessoal, desprovida de qualquer vaidade”.
Por isso, segundo ela, substituir a governadora nessa disputa “é uma grande responsabilidade, mas também um motivo de orgulho”.
“Nossas trajetórias estão ligadas não por uma estratégia de marketing, mas por uma história construída na luta e no trabalho. Tenho dedicado minha juventude a esse projeto e sei que não poderia estar em outro caminho, porque isso pra mim é uma missão”, completa.
Inspirada em Fátima, Samanda quer fazer história novamente pelo PT
Ao inspirar-se na trajetória da professora que virou deputada, senadora e depois governadora, Samanda acredita que é possível fazer história de novo ao reconquistar para o PT do Rio Grande do Norte uma vaga no Senado – um espaço que, até pouco tempo, era reservado aos representantes das tradicionais oligarquias políticas potiguares.
A mossoroense, filha da ex-empregada doméstica e professora aposentada Elineide Alves de Freitas e do ex-comerciante Valgmar Avelino de Freitas, Samanda tem consciência da dimensão da empreitada que a espera, mas assegura que não lhe faltam coragem, persistência e resistência para travar essa “luta coletiva”.
“Já passamos por momentos muito duros em nosso país, que tentaram calar quem lutava pelo povo, mas teve gente que não recuou. Fátima Bezerra mostrou que é possível. Uma mulher que nunca esqueceu da sua origem e que governa olhando para o povo. É nesse caminho que eu me reconheço. É por isso que eu estou pronta para dar um passo maior, para fazer essa luta chegar mais longe e alcançar ainda mais gente”, diz.
Fonte: saibamais.jor.br