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Ginga Breakers coloca jovens da Redinha no mapa do breaking nacional

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Na Redinha, zona Norte de Natal, o breaking acontece entre passos rápidos, caixas de som improvisadas e uma rotina construída no esforço coletivo. É ali que o projeto social Ginga Breakers vem transformando a cultura Hip-Hop em ferramenta de formação, pertencimento e futuro para crianças e jovens da comunidade. Em 2026, esse trabalho ganhou ainda mais visibilidade ao colocar três representantes no TOP 16 da categoria kids do CQÉC, o Chega Que É Certo, um dos maiores festivais de danças urbanas da América Latina.

O resultado levou a Redinha para o centro de uma competição nacional e reafirmou algo que os arte-educadores do projeto já viam há muito tempo: existe potência artística nas periferias, mesmo quando faltam estrutura, apoio e espaços adequados para treinar.

O Hip-Hop não é só dança para eles, é uma ferramenta de transformação pessoal e social”, resume a arte-educadora Flávia Dantas, conhecida na cena como Bgirl Flavs.

O Ginga Breakers nasceu a partir do Breakin’ Delas, coletivo criado por Flávia em 2023 para fortalecer a presença feminina dentro do breaking. A proposta inicial era oferecer um espaço de expressão artística e empoderamento para meninas da Redinha, território onde a cultura urbana já fazia parte do cotidiano, mas ainda encontrava barreiras para alcançar reconhecimento e continuidade.

Com o tempo, meninos da comunidade começaram a se aproximar das atividades. Daí surgiu o Ginga Breakers, ampliando o alcance do projeto para crianças e jovens em geral, sem abandonar o protagonismo feminino. Hoje, os dois coletivos funcionam de forma articulada e atendem cerca de 16 jovens de maneira totalmente voluntária.

Além de Flávia, o projeto é coordenado pelos arte-educadores Juan Pablo, o Bboy Juan, e Ryan Gonçalves, conhecido como Bboy Minimus. Ryan divide a rotina entre ensinar e competir, algo que, segundo ele, exige equilíbrio constante.

“Estou há 10 anos no cenário competitivo, e definitivamente é um desafio administrar o tempo tanto para o ensino dos jovens do Ginga Breakers quanto o tempo que dedico para minha evolução enquanto competidor”, conta.

A experiência nas batalhas nacionais acaba voltando para dentro das aulas. Os movimentos aprendidos nas competições, as trocas com outros grupos e a vivência na cultura Hip-Hop se transformam em referência para os alunos.

“A influência que a minha história no Breaking proporciona para as crianças e jovens vai muito além da base teórica e prática da dança. Ela também cria identidade, respeito, disciplina e um senso de pertencimento a algo maior”, afirma Ryan.

Essa conexão entre formação e representatividade ficou evidente no CQÉC 2026. Em meio a grupos de alto nível de várias regiões do Brasil, três crianças da Redinha chegaram ao TOP 16 da categoria kids. Para o coletivo, o resultado teve um peso simbólico que vai além da classificação.

“Isso comprova, na prática, o esforço e a qualidade do ensinamento que a gente oferece na nossa comunidade, mesmo com todas as limitações estruturais e financeiras que enfrentamos”, diz Ryan.

Flávia também destaca que a conquista funciona como uma quebra de horizonte para os jovens participantes.

“Isso fortalece a autoestima deles, amplia horizontes e faz com que passem a se enxergar como capazes de chegar mais longe”, afirma.

O evento também contou com destaque dos próprios educadores. Flávia integrou a banca de jurados da categoria kids e alcançou o TOP 8 da categoria individual feminina, disputada por uma vaga no Dubai Open Breaking 2026. Já Juan Pablo e Ryan participaram da seletiva 3×3, reforçando a presença do grupo na cena nacional.

Falta de espaços públicos e oportunidades ainda é desafio

Mesmo com a visibilidade conquistada, o cotidiano do projeto ainda esbarra em dificuldades básicas. O Ginga Breakers não possui sede própria e funciona em espaços cedidos voluntariamente. A falta de estrutura impacta diretamente a frequência dos treinos, o número de crianças atendidas e até a permanência dos alunos.

O principal desafio hoje é a falta de espaços adequados para a prática esportiva e cultural na Redinha”, explica Flávia, que emenda:

“Também enfrentamos dificuldades com recursos básicos, como apoio para tênis, fardamento e alimentação das crianças.”

Ainda assim, o projeto segue ocupando territórios dentro e fora da comunidade. Além das aulas, o coletivo participa de apresentações culturais, ações solidárias e mantém presença ativa nas redes sociais, onde divulga treinos, performances e bastidores da rotina dos alunos.

Para os coordenadores, esse movimento é também uma forma de disputar narrativas sobre a periferia.

“O que essa conquista mostra é que a potência da periferia sempre existiu. O que falta, muitas vezes, é oportunidade. Quando existe acesso, esses jovens não apenas aprendem. Eles se destacam, representam e elevam o nome do seu território“, diz.

A ida do grupo ao CQÉC também contou com apoio coletivo. O mandato do vereador Daniel Valença e da deputada federal Natália Bonavides contribuíram para viabilizar a participação dos jovens no evento.

Na prática, porém, o que sustenta o Ginga Breakers continua sendo a insistência diária de quem acredita que cultura também é política pública, educação e possibilidade de futuro.

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Fonte: saibamais.jor.br

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