Apesar da repercussão negativa do projeto à época, a Prefeitura do Natal planeja retomar a proposta de implantação de uma trincheira no cruzamento das avenidas Salgado Filho com Alexandrino de Alencar, de acordo com o Plano Plurianual 2026-2029, publicado no Diário Oficial em 28 de novembro de 2025. O documento traz, ainda, a proposta de implantação de estacionamento rotativo na cidade e de contratação de um estudo de viabilidade para construção de uma terceira ponte sobre o Rio Potengi.
Em 2023, a Prefeitura já havia proposto a construção de duas trincheiras, uma no cruzamento da Salgado Filho com a Alexandrino de Alencar, e outra no cruzamento da Salgado Filho com a Nascimento de Castro. Diante dos protestos de moradores e ciclistas, a Justiça Federal chegou a proibir a obra, atendendo a uma Ação Popular movida pelo vereador Daniel Valença, até que as diferentes partes fossem ouvidas. Mas, o projeto acabou não indo para a frente.
A obra tinha conclusão programada para 2026, segundo a documentação apresentada à justiça, e entre as justificativas para sua execução, orçada em R$ 25 milhões, a empresa L. R. Engenharia e Consultoria, consultada pela Prefeitura do Natal, argumentou que a trincheira permitiria que a via funcionasse “sem semáforos”.
“Num contexto internacional de mudanças climáticas e debates em como diminuir as causas do aquecimento global, a opção por trincheiras como mote para melhorar a mobilidade urbana parece incoerente com as perspectivas internacionais. Devemos ter em mente que a emissão de dióxido de carbono (CO2), aquela fumaça que sai do cano de escape dos automóveis, é responsável por 75% dos gases nocivos ao meio ambiente e que geral o aquecimento global. Nesse sentido, a opção da Prefeitura de Natal por uma mobilidade urbana que estimule, cada vez mais, o deslocamento através de carros individuais parece estar na contramão dos debates internacionais sobre o tema. Alternativas existem e elas devem ser planejadas e implementadas num conjunto“, alerta Fábio Fonseca, professor do Instituto de Políticas Públicas da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN).

Na época, Daniel Valença, que moveu a Ação Popular, ainda alertou para a ausência de análise do custo/ benefício e de alternativas mais baratas, como a implantação de binários, que são vias paralelas de mão dupla que passam a ser de mão única; cada via num sentido, sendo uma indo e outra voltando.
“Uma vez que há uma nítida intenção da Prefeitura de Natal em estimular o deslocamento urbano através de carros individuais, os impactos por essa opção oficial tornarão cada vez dificultosa a mobilidade ativa e coletiva. O sistema de transporte público de Natal caótico e, para saber disso, basta você pegar um ônibus e irá constatar a ineficiência do serviço disponível. A mobilidade através da bicicleta não parece ser uma opção estimulada pela prefeitura. Cicloestruturas construídas em locais onde não há trânsito de ciclistas simbolizam o pouco caso com esse modal de deslocamento. E, essa falta de atenção à ciclomobilidade pode ser representada numa imagem que é o fechamento sumário da ciclovia de Ponta Negra, onde se instala a árvore de Natal a cada final de ano“, critica Fonseca.
A projeção feita pela SSTU à época da proposta inicial, em 2023, mostrava que a trincheira devia absorver o fluxo de veículos dos próximos dez anos, passando de 65 mil veículos para 95 mil veículos por dia. Porém, segundo o professor da UFRN Rubens Ramos, especialista em trânsito, pela manhã a capacidade no sentido de maior fluxo direto (Candelária – Tirol) passaria de 2.058 veículos para 2.262, o que levaria a um aumento de capacidade de 204 veículos por hora, ou 9,9%. Já na conversão à direita, na direção do Parque das Dunas, o tráfego passaria de 3.064 para 3.393 veículos.
Outra questão levantada pela análise de Rubens Ramos, é que o estudo apresentado pela Prefeitura do Natal não fazia a análise do corredor, e, em particular, dos cruzamentos anteriores, posteriores ou próximos do ponto da intervenção, como na avenida Prudente de Morais.
“Se você é cadeirante, se você é obeso, se você é idoso e/ou se você possui alguma dificuldade de mobilidade, certamente o seu deslocamento na cidade de Natal é reduzido devido as calçadas irregulares e desconexas. Portanto, mais carros individuais implicam em menos passeios públicos que poderiam ser destinados à mobilidade ativa e essas trincheiras representam essa opção oficial. No nosso entendimento, e relacionado aos debates nos fóruns internacionais que advogam uma mobilidade resiliente e sustentável (veja ODS 11), a Prefeitura de Natal deveria “desconcretizar” a cidade e não propor mais e mais carros individuais nas vias públicas da cidade usando mais e mais concreto“, avalia Fábio Fonseca.
A Agência SAIBA MAIS entrou em contato com a Secretaria de Mobilidade Urbana (STTU) para saber mais sobre o projeto, mas nós ainda não obtivemos retorno. O espaço segue aberto.
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Fonte: saibamais.jor.br