Na esquina entre a garagem de uma casa e a Praça Santa Paula Frassinetti, no bairro de Felipe Camarão, Zona Oeste de Natal, um grupo de jovens artistas decidiu transformar curiosidade em pedagogia e convivência em política cultural. O Coletivo A Gente nasceu oficialmente em 3 de janeiro de 2023, quando cinco amigos alugaram uma pequena sede para estudar e pesquisar artes integradas. Em poucos dias, o espaço deixou de ser apenas um laboratório artístico e virou ponto de encontro comunitário.
A data é lembrada como um divisor de águas. “Não alugamos só uma sede no dia 3 de janeiro de 2023, começamos a sonhar juntos e entender a força de um sonho sonhado em comunidade”, conta a integrante Érica Belizia.
O plano inicial era restrito: ensaiar, pesquisar e criar. Mas a comunidade atravessou o projeto antes que o coletivo pudesse definir seus próprios limites. Crianças começaram a observar os ensaios pelas frestas do portão, se aproximaram e passaram a participar das experiências. Vieram contações de histórias, depois jogos teatrais e oficinas. Em pouco tempo, mais de 40 crianças ocupavam a garagem.
Sem estrutura física para comportar a demanda, o grupo expandiu as atividades para a praça ao lado. O espaço público virou sala de aula. “O território e o cotidiano vêm se fazendo parte da nossa pedagogia”, afirma Alisson Lima. “A praça é o lugar do encontro.”
Arte feita de dentro
A escolha de atuar em Felipe Camarão não foi estratégica, mas orgânica. A maioria dos integrantes mora no bairro e construiu ali sua trajetória. O coletivo parte da experiência cotidiana para criar suas práticas.
“Criamos a partir de dentro do bairro, com pertencimento e responsabilidade”, explica Raphael Formiga. Segundo ele, o território influencia diretamente as urgências e o modo de fazer arte-educação do grupo.
O trabalho com crianças se tornou eixo permanente. Organizadas por faixas etárias, as turmas passaram a ter encontros semanais e deram origem ao projeto Rabiola, uma proposta de artes integradas envolvendo teatro, literatura e intervenções artísticas.
Os impactos aparecem no comportamento das crianças e no envolvimento das famílias. “As crianças demonstram ser cada vez mais participativas, criativas e afetivas”, relata Francisco Silva. “É comum estarem dispostas a ajudar nos eventos da praça mesmo quando não são direcionados a elas.”
O primeiro ano de atuação foi sustentado exclusivamente por trabalho voluntário. Aluguel, materiais pedagógicos e lanche das crianças saíam do bolso dos próprios integrantes ou de doações da comunidade.
Em 2024, o coletivo teve três projetos aprovados na Lei Paulo Gustavo e participou da coidealização de uma ação financiada pela Lei Rouanet, via Banco do Nordeste. Entre as iniciativas, estavam projetos de incentivo à leitura, formação de professores e exposições fotográficas com moradores do bairro.
As aprovações trouxeram alívio e reconhecimento institucional. “Representaram um importante sinal de esperança quanto ao funcionamento dos editais para coletivos comunitários”, avalia Alisson Lima.
Ainda assim, o financiamento não resolveu a sustentabilidade do projeto. O grupo segue majoritariamente sem remuneração fixa. “Os jovens que fazem o projeto acontecer não recebem pelo que fazem, mas fazem. Tiram do próprio bolso, mas fazem. Mas até quando isso será possível?”, questiona o integrante.
Praça como política pública
Além das oficinas semanais, o coletivo promove eventos culturais abertos. O (H)Á Gente na Praça reúne apresentações artísticas, contação de histórias e atividades educativas, sempre gratuitas. A proposta é simples: transformar o espaço público em experiência de pertencimento.
A praça também recebe apresentações teatrais e performances. A primeira montagem do grupo foi O Auto da Compadecida, de Ariano Suassuna, reinterpretado a partir das vivências da periferia e apresentado em escolas e na Universidade Federal do Rio Grande do Norte.
Com o tempo, as atividades passaram a envolver jovens, adultos e idosos, consolidando a ideia de arte-comunidade defendida pelo coletivo.
Para o quarto ano de atuação, o objetivo principal não é expansão, mas permanência. “O principal desejo é seguir existindo e existir com mais dignidade”, afirmam os membros do grupo.
Entre as metas estão ampliar a equipe, retomar ações voltadas à juventude e desenvolver criações autorais, além de manter as atividades com crianças e eventos públicos. O coletivo também busca transformar o trabalho voluntário em atuação profissional remunerada.
Enquanto o financiamento contínuo não chega, a estratégia segue sendo a mesma que deu origem ao projeto: inventar caminhos.
Entre uma garagem que virou escola e uma praça que se tornou palco, o Coletivo A Gente construiu uma pedagogia própria baseada em convivência, arte e território. A experiência mostra como iniciativas culturais periféricas não apenas produzem arte, mas reorganizam relações sociais e educacionais dentro da cidade.
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Fonte: saibamais.jor.br
