Eram cerca de três da manhã quando o silêncio da Rua das Nogueiras, no bairro Pitimbu, zona Sul de Natal, foi quebrado pela chegada da Polícia Militar do Rio Grande do Norte. Dentro do prédio ocupado por mulheres, algumas ainda limpavam o espaço coberto de poeira, outras acompanhavam crianças que estavam no local.
Do lado de fora, policiais pediam silêncio. Em determinado momento, um dos agentes ordena a um colega: “Pega o spray de pimenta agora”. O diálogo, gravado em vídeo pelas participantes da ação, marca o início da tensão entre policiais e integrantes do Movimento de Mulheres Olga Benário, que realizam a ocupação no imóvel.
A ação aconteceu na madrugada deste sábado (14), em um prédio público abandonado. A ocupação foi batizada de Ocupação da Mulher Trabalhadora Maria do Carmo e integra uma mobilização nacional do movimento para denunciar o aumento da violência contra mulheres no país e pressionar governos pela ampliação de políticas públicas de proteção.
Segundo a militante Kívia Moreira, integrante do movimento no Rio Grande do Norte, a ação faz parte de uma jornada nacional de ocupações organizada pelo coletivo.
“Essa ação é uma ação nacional do Movimento de Mulheres Olga Benário em resposta aos casos de feminicídio e à violência contra as mulheres que têm acontecido no Brasil inteiro”, afirmou.
De acordo com ela, o movimento realizou uma série de ocupações simultâneas em diferentes estados.
“A gente fez uma jornada de ocupações de mulheres em todo o Brasil, de norte a sul do país. Aqui no Rio Grande do Norte, fizemos em Natal, no bairro Pitimbu, como ferramenta de denúncia política sobre a violência contra as mulheres”, disse.
Reivindicações
Segundo Kívia Moreira, a mobilização busca pressionar o poder público por políticas estruturais de combate à violência de gênero.
“O que de fato vai resolver a questão da violência contra as mulheres é ter políticas de emprego digno, moradia digna, alimentação, creche para as crianças. Não é apenas a punição dos agressores”, afirmou.
Entre as reivindicações apresentadas pelo movimento estão a implantação e ampliação de casas de acolhimento para mulheres vítimas de violência; a construção da Casa da Mulher Brasileira em Natal; a criação de novos espaços de acolhimento em diferentes regiões da cidade; e políticas públicas de habitação e combate à fome.
A militante também afirmou que o movimento reivindica a cessão do espaço de acolhimento às mulheres vítimas das múltiplas violências, físicas e psicológicas, sejam domésticas ou do Estado (pela ação ou omissão), a Ocupação Anatália Alves, a 1ª ocupação de mulheres do RN e 19ª do Brasil.
“Uma das nossas demandas é a cessão do espaço que ocupamos, além da construção da Casa da Mulher Brasileira e de melhores políticas de habitação e combate à violência”, disse.
A reportagem tenta confirmar com o governo estadual a situação atual do projeto da Casa da Mulher Brasileira no estado.
Abordagem policial
Vídeos gravados durante a ocorrência mostram o momento em que policiais chegam ao local e iniciam a abordagem.
Nas imagens, o policial que conduz o diálogo, identificado como Sargento Diniz, afirma que a equipe foi acionada por moradores da região e questiona a ocupação do prédio público.
“Vocês todos vão para a delegacia”, diz o agente em um dos trechos do vídeo.
Durante a conversa, o policial também interrompe repetidas vezes a fala de Kívia Moreira, que tentava explicar o objetivo da ocupação. Em diferentes momentos da gravação, ele exige que ela fale em um tom mais baixo e chega a mandar que ela se cale, enquanto ela tenta expor as razões da mobilização.
No diálogo registrado, o agente afirma que só permitiria a continuidade da conversa caso a militante falasse “no mesmo tom” que ele.
Segundo integrantes do movimento, a postura foi interpretada como uma tentativa de intimidação e de impedir que elas apresentassem os motivos da ocupação.
Kívia também afirmou que houve momentos em que policiais apontaram armas na direção das mulheres presentes no local.
“Ele me mandou calar a boca várias vezes, apontou o dedo na minha cara e mirou a arma nas companheiras de forma totalmente desnecessária”, relatou.
Ela também criticou o fato de a abordagem ter sido feita por policiais homens enquanto a ocupação era composta majoritariamente por mulheres.
“Todas as pessoas que estavam na operação eram homens. A nossa ocupação era de mulheres e a abordagem foi muito truculenta”, afirmou.
Após cerca de uma hora de negociação e contato do movimento com advogados e com o comando da corporação, a equipe policial deixou o local e solicitou que o grupo evitasse barulho.
A reportagem procurou a Polícia Militar do Rio Grande do Norte para comentar a abordagem e esclarecer os procedimentos adotados na ocorrência. Até o fechamento desta matéria, não houve resposta.
Violência contra mulheres no Brasil
A mobilização ocorre em um contexto de crescimento dos registros de violência de gênero no país.
Dados do Fórum Brasileiro de Segurança Pública indicam que o Brasil registrou 87.545 casos de estupro em 2024, o maior número da série histórica.
No mesmo cenário, o país também registrou 1.470 feminicídios em 2025, segundo dados do Ministério da Justiça e Segurança Pública.
Situação no Rio Grande do Norte
No Rio Grande do Norte, 21 mulheres foram vítimas de feminicídio em 2025, segundo dados da Secretaria de Segurança Pública.
Nos últimos cinco anos, o estado registrou cerca de 100 feminicídios, além de centenas de ocorrências de violência sexual, muitas delas envolvendo crianças e adolescentes.
Quem foi Maria do Carmo
A ocupação realizada em Natal recebeu o nome de Ocupação da Mulher Trabalhadora Maria do Carmo, em homenagem a uma militante política cuja trajetória atravessa o período da ditadura militar brasileira.
Maria do Carmo nasceu em 10 de junho de 1947, em Bananeiras, na Paraíba, e passou a infância e a adolescência em São José do Campestre, no interior do Rio Grande do Norte.
Na década de 1960, mudou-se para Natal para cursar o ensino médio. Na capital potiguar, morou na Casa da Estudante do Rio Grande do Norte e estudou no Colégio Estadual, onde entrou em contato com militantes do Partido Comunista Revolucionário.
Durante a ditadura militar, diante da perseguição a militantes do partido no estado, foi transferida para Recife. Na capital pernambucana, passou a viver com nova identidade e trabalhou por anos em uma fábrica de confecções no bairro da Torre, atuando nos setores de tinturaria e estamparia.
Posteriormente, foi processada pela Justiça Militar durante o regime e cumpriu pena determinada pela 7ª Auditoria Militar da 7ª Região do Exército.
Após esse período, mudou-se para São Paulo, onde trabalhou, constituiu família e teve filhos. Mais tarde retornou ao Rio Grande do Norte, onde criou os três filhos e participou da criação dos netos.
Maria do Carmo morreu após complicações de saúde durante tratamento contra leucemia. Seu corpo foi sepultado no Cemitério Morada da Paz.
Segundo o movimento, dar seu nome à ocupação busca reconhecer a trajetória de uma mulher trabalhadora que enfrentou a repressão da ditadura e manteve uma história de militância política.
Fonte: saibamais.jor.br
