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IFRN cria centro para transformar escassez de água em ciência no semiárido potiguar

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Foto: IFRN

A escassez de água no semiárido nordestino não é apenas um desafio climático — é um fator que molda a vida social, econômica e ambiental da região. No Rio Grande do Norte, essa realidade tem impulsionado iniciativas que buscam transformar limitações em soluções. Uma delas é o Centro de Tecnologia de Águas do Semiárido, cuja sede será inaugurada em junho desse ano no Campus São Paulo do Potengi do Instituto Federal do Rio Grande do Norte (IFRN).

Mais do que um novo prédio, o centro nasce como um espaço de convergência entre ciência, demandas locais e desenvolvimento regional. A proposta é atuar diretamente na pesquisa, no monitoramento e na criação de tecnologias voltadas à gestão dos recursos hídricos, com impacto tanto para comunidades quanto para atividades econômicas.

De acordo com o professor Renato Dantas, coordenador da iniciativa, os trabalhos já estão em andamento, mesmo antes da inauguração oficial. Atualmente, 28 estudantes participam de oito projetos de pesquisa, orientados por três professores doutores na área de recursos hídricos.

“O centro ainda será inaugurado fisicamente, mas já existe no campo da pesquisa. Temos publicações científicas, participação em congressos e relatórios técnicos sendo produzidos”, explica.

A estrutura em fase final de construção contará com oito laboratórios, incluindo espaços dedicados ao sensoriamento remoto, análise e tratamento de água, além do desenvolvimento de protótipos para simulação de processos.

A expectativa é ampliar a capacidade de pesquisa e também oferecer serviços à população, como análise da qualidade da água de poços, açudes e barreiros.

Ciência conectada ao território

Foto: IFRN

A escolha de São Paulo do Potengi para sediar o Centro de Tecnologia de Águas do Semiárido não é aleatória.

A região carrega uma forte relação histórica com a luta pelo acesso à água, simbolizada pela atuação do Monsenhor Expedito, conhecido como “missionário das águas”. Esse vínculo ajudou a consolidar a identidade do campus em torno da temática hídrica.

A implantação do campus, no início de outubro de 2013, foi precedida de diversas audiências públicas realizadas em vários municípios da região para ouvir as demandas da população, onde a questão da água apareceu como prioridade recorrente.

Esse alinhamento entre vocação institucional e necessidade social é, segundo o professor Renato Dantas, o que dá sentido ao centro.

“A gente não está criando tecnologia distante da realidade. Estamos respondendo a uma demanda concreta do território”, afirma.

Desenvolvimento limitado pela escassez da água

Foto: IFRN

No semiárido potiguar, a irregularidade no abastecimento ainda é um obstáculo significativo ao desenvolvimento. Em algumas localidades, a água chega a intervalos de até 12 dias, o que impacta diretamente a atividade econômica e a qualidade de vida.

“Não é apenas uma questão de sobrevivência. É uma limitação ao desenvolvimento. A instalação de indústrias, o crescimento do comércio — tudo depende de acesso regular à água”, destaca o professor.

Diante desse cenário, o centro pretende investir em soluções como dessalinização de água de poços e reuso de efluentes para produção agrícola. A ideia é integrar conhecimento científico e saberes tradicionais para criar alternativas viáveis em diferentes escalas.

Essa abordagem dialoga com experiências internacionais em regiões áridas, onde políticas públicas e inovação tecnológica permitiram superar limitações naturais e promover desenvolvimento sustentável.

Potencial da Caatinga como solução

O semiárido está inserido na Caatinga, que é o único bioma exclusivamente brasileiro. É justamente nesse ambiente, lembra o professor Renato Dantas, que pesquisadores têm encontrado parte das soluções.

Ele conta que há estudos que já investigam o uso de plantas nativas, como angico-vermelho e jurema-preta, no tratamento de água. Essas espécies possuem propriedades coagulantes que podem ser aplicadas no tratamento de efluentes.

A Caatinga, além disso, vem ganhando destaque como importante sumidouro de carbono, reforçando seu valor ambiental e estratégico.

“O potencial é enorme, mas ainda pouco explorado. Falta investimento em ciência e políticas públicas para transformar esse conhecimento em soluções mais amplas”, avalia Dantas.

Infraestrutura e financiamento

Foto: IFRN

A construção do centro é resultado da articulação de diferentes fontes de recursos. A obra, orçada em cerca de R$ 1,2 milhão, contou com emendas parlamentares — R$ 500 mil destinados pelo ex-senador Jean Paul Prates (PDT) e R$ 200 mil pela deputada Natália Bonavides (PT), além de recursos próprios do IFRN e financiamentos via editais da Finep.

Já foram investidos também, ainda segundo o professor, aproximadamente R$ 200 mil em equipamentos laboratoriais básicos.

A expectativa é que, com a inauguração, o centro amplie sua atuação e fortaleça parcerias com outras instituições, contribuindo para a formação de uma rede de pesquisa voltada à gestão hídrica no semiárido.

Ciência como resposta à escassez

O Centro de Tecnologia de Águas do Semiárido, para além da infraestrutura, representa uma mudança de perspectiva: tratar a escassez não apenas como problema, mas como ponto de partida para inovação.

Em uma região onde a água é elemento central da vida cotidiana, iniciativas como essa reforçam o papel das instituições públicas na produção de conhecimento aplicado e na promoção do desenvolvimento regional.

Como resume o professor Renato Dantas, “é possível construir soluções sustentáveis mesmo em contextos de limitação — desde que haja investimento, articulação e compromisso com o território”.

Fonte: saibamais.jor.br

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