Uma pesquisa em cavernas da Caatinga potiguar revelou que a biodiversidade subterrânea do Rio Grande do Norte, o estudo, conduzido por pesquisadores da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN) em parceria com a Universidade Federal do Piauí (UFPI), Universidade Federal de Lavras (UFLA) e o Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), identificou novas espécies de aracnídeos no Monumento Natural Cavernas de Martins.
O estudo revela que o que antes era tratado como uma única espécie, Rowlandius potiguar, na verdade é um conjunto de três espécies distintas. A reclassificação só foi possível graças ao uso combinado de análises morfológicas e dados moleculares, uma abordagem mais recente na ciência. Duas dessas espécies são novas para a ciência: Rowlandius tybykyra e Rowlandius itaoca, ambas encontradas em ambientes cavernícolas do semiárido.
Para a bióloga Bruna Pessoa, atualmente mestranda na área de biologia parasitária, esse tipo de revisão é mais comum do que parece e diz muito sobre os limites do conhecimento científico. “Isso acontece com bastante frequência. Às vezes a gente acha que está lidando com uma única espécie, mas podem ser duas, três ou até mais. Hoje, com a taxonomia integrativa e o uso de ferramentas moleculares, conseguimos refinar muito essa identificação”, explica.
Entre os achados, chama atenção a espécie Rowlandius itaoca, registrada até agora apenas na caverna Casa de Pedra, dentro do MONA Martins. A ocorrência restrita levanta um alerta sobre a vulnerabilidade desses organismos. Segundo Bruna, isso tem relação direta com a biologia desses animais. “Os esquizomídeos têm uma cutícula muito fina, perdem água com facilidade e, por isso, precisam de ambientes úmidos. É comum que fiquem restritos a locais como a serrapilheira ou cavernas, que oferecem essas condições”, detalha.
Esse tipo de adaptação ajuda a explicar por que a fauna cavernícola costuma ser tão específica e, muitas vezes, endêmica. Ao mesmo tempo, reforça a importância de áreas protegidas. O Monumento Natural Cavernas de Martins é uma Unidade de Conservação de Proteção Integral administrada pelo Idema, o que garante maior resguardo a esses ecossistemas frágeis.
O supervisor do Núcleo de Fauna do Idema, Marcelo Silvia, destaca o peso da descoberta. “Esse achado reforça a relevância do Rio Grande do Norte como um importante polo de diversidade de organismos cavernícolas e chama atenção para a necessidade de conservação desses ambientes”, afirma.
Apesar dos avanços, os esquizomídeos ainda seguem pouco estudados. Bruna aponta que isso se deve, em parte, à própria dimensão do grupo. “Quando você compara com aranhas, que têm mais de 48 mil espécies descritas, os esquizomídeos somam cerca de 380 no mundo inteiro. É um grupo naturalmente menos diverso e, por isso, acaba sendo menos pesquisado”, diz. Ainda assim, ela vê com entusiasmo o aumento do interesse científico. “A gente fica muito feliz quando mais pesquisadores passam a olhar para esses grupos que foram deixados de lado”, completa.
A pesquisa foi financiada por meio de projetos vinculados aos Termos de Compromisso de Compensação Espeleológica (TCCE) nº 01/2018 e nº 01/2022, firmados entre o ICMBio e a Vale S.A., com gestão do Instituto Brasileiro de Desenvolvimento e Sustentabilidade (IABS). O estudo foi publicado no periódico científico Zoological Journal of the Linnean Society.
Assinam o trabalho Bezerra Dantas, Iara Siqueira Santos Silva, Leonardo Sousa Carvalho, Rodrigo Lopes Ferreira, Diego de Medeiros Bento e Sergio Maia Queiroz Lima.
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Fonte: saibamais.jor.br
