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Encontro de Juremeiros reúne mais de mil fiéis e fortalece a Jurema como patrimônio vivo

A Jurema Sagrada ocupou centro da cena cultural, espiritual e política do Rio Grande do Norte com a realização do 9º Encontro de Juremeiros e Juremeiras de Natal, ocorrido no último dia 8 de janeiro, na Pinacoteca do Estado. O evento reuniu mais de mil irmãos e irmãs de fé vindos de diversas regiões potiguares e de estados vizinhos, em um grande ato coletivo de afirmação, a Jurema é um patrimônio vivo do povo nordestino e do povo potiguar, e precisa ser preservada, protegida e respeitada.

A Jurema Sagrada é uma tradição religiosa de matriz indígena, profundamente enraizada no Nordeste brasileiro. Associada historicamente aos povos originários e, ao longo do tempo, também aos povos negros e mestiços, a Jurema articula espiritualidade, cura, encantaria e o culto aos mestres e mestras. Seus rituais envolvem elementos simbólicos como a árvore da jurema, o cachimbo, as ervas, os cantos e a palavra. Mais do que um sistema religioso, a Jurema constitui um modo de viver, de organizar a comunidade e de transmitir saberes ancestrais, preservados sobretudo pela oralidade.

Esse modo de existir, no entanto, sempre enfrentou perseguições. Desde o período colonial, quando indígenas praticantes de saberes ancestrais eram criminalizados em processos inquisitoriais, até o período imperial, quando juremeiros eram rotulados como charlatães e feiticeiros, a Jurema foi alvo constante da intolerância religiosa. Uma violência que, segundo lideranças, permanece viva nos dias atuais.

Para Ta’angahara, nome espiritual de Fábio de Oliveira, o 9º Encontro de Juremeiros simboliza justamente a resposta coletiva a esse histórico de opressões.

“Desde o período colonial, com processos inquisitoriais contra indígenas mandingueiros, até o império, quando juremeiros eram tratados como charlatães de baixo espiritismo, a Jurema enfrenta perseguições que seguem até hoje. O encontro simboliza resistência e união de juremeiros de diversas casas e ramas, fortalecendo nossa tradição e nossa luta”, afirma.

Segundo ele, a expressiva presença de público revela a força da Jurema enquanto campo de fé, cultura e organização social:
“Ver mais de mil irmãos e irmãs reunidos é emocionante. É a materialização da nossa fé, da ancestralidade e da luta contra o preconceito. Esses encontros promovem união, confraternização e a manutenção dos laços entre casas e territórios”, destaca Ta’angahara.

O encontro contou com apoio da deputada estadual Isolda Dantas e do Governo do Rio Grande do Norte, sob a gestão de Fátima Bezerra. A iniciativa integra oficialmente o calendário de eventos do estado e está amparada por marcos legais recentes. Em 2024, a Jurema Sagrada foi reconhecida como Patrimônio Religioso e Cultural Imaterial do Rio Grande do Norte, além da instituição do Dia da Jurema, celebrado em 2 de julho. Para os povos de terreiro, no entanto, o reconhecimento legal ainda não se traduz plenamente em garantia de direitos.

“Mesmo com as leis instituídas, as investidas contra os terreiros continuam acontecendo por meio de depredações, repressões e invasões. O encontro não é apoiado e fomentado como deveria. Apenas leis ou apoios rasos não garantem efetividade. É preciso combater o racismo e a intolerância religiosa entranhados no seio institucional”, alerta Ta’angahara, ao citar também a incerteza sobre espaços públicos para as próximas edições do evento.

Além da dimensão espiritual e política, o 9º Encontro de Juremeiros evidenciou a força da economia de terreiro. Artesãos, cozinheiras, artistas e empreendedores apresentaram produtos que unem ancestralidade, criatividade e sustento. Cachimbos pirografados ao vivo, artesanato, vestuário e gastronomia ritual ocuparam o espaço como expressão de uma economia viva, baseada em saberes tradicionais e redes comunitárias.

Mais do que comércio, a economia de terreiro reafirma identidade e autonomia. É memória circulando, cultura em movimento e trabalho que nasce dos fundamentos da Jurema, fortalecendo famílias e territórios sem abrir mão do axé e do respeito à tradição.

Outro momento marcante do encontro foi o lançamento do livro Soledade: Cachimbo, Rede e Rosário, de Mãe Maria Rita, referência histórica da Jurema no Rio Grande do Norte. Em sua fala, ela ressaltou o papel da oralidade como estratégia de sobrevivência diante da exclusão histórica dos povos de terreiro. “Nós somos um povo de oralidade porque nunca deixaram a gente entrar na academia, nunca deixaram a gente publicar nossos saberes. Então não dá mais para pedir permissão. A oralidade vai se manter, mas nós precisamos registrar a nossa memória”, afirmou.

Para Mãe Maria Rita, escrever e registrar a tradição é um ato de continuidade. “Na nossa tradição, a gente só morre quando a gente esquece. Por isso é tão importante registrar os nossos saberes e a nossa história”, disse, emocionando o público ao entoar versos que atravessam gerações e reafirmam a força da Jurema.

Idealizador do encontro e dirigente do Terreiro de Jurema Mestre Benedito Fumaça, Pai Freitas destacou o caráter coletivo e político da iniciativa. “Esse é um movimento de grande importância para nós, povos de terreiro, nessa luta e nessa resistência por respeito às nossas festas, aos nossos ritos e à Jurema Sagrada. Essa luta é nossa”, afirmou.

Ao chegar à nona edição, o Encontro de Juremeiros e Juremeiras de Natal se consolida como um dos principais espaços de celebração, articulação e resistência da Jurema Sagrada no Rio Grande do Norte. Um território onde fé, memória, cultura, economia e política caminham juntas, reafirmando que a Jurema não pertence apenas ao passado, mas segue viva no presente e em permanente construção de futuro.

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Fonte: saibamais.jor.br

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